Um futuro mais equânime começa pelo cuidado compartilhado

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O futuro que desejamos construir começa pelos incômodos que escolhemos não ignorar. Quando algo nos parece natural por tempo suficiente, deixamos de questioná-lo. Contudo, são exatamente esses desconfortos tidos como naturais que frequentemente servem de alicerce para a manutenção de desigualdades sociais.

A licença parental é um desses casos. Durante mais de 30 anos de vida profissional, carreguei uma inquietação que nem sempre soube nomear com clareza. Sempre me pareceu estranho que homens e mulheres chegassem ao mercado de trabalho sob contratos que, na prática, eram diferentes.

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De um lado, mulheres que ingressam nas organizações já acompanhadas da expectativa de um eventual afastamento prolongado para exercer a maternidade. De outro, homens que permanecem vinculados a uma lógica em que seu papel principal continua sendo o de provedor financeiro.

Por muito tempo, esse incômodo ficou apenas como uma sensação de que algo não parecia justo. Nem para as mulheres, nem para os homens.

Para as mulheres, porque a diferença contratual alimenta vieses conscientes e inconscientes que influenciam decisões de contratação, promoção e desenvolvimento de carreira. Para os homens, porque lhes nega o direito de viver plenamente um dos momentos mais transformadores da vida: a chegada de um filho.

Essa percepção se tornou ainda mais concreta quando vivi minhas próprias experiências de maternidade. Quem já passou por isso sabe que a chegada de uma criança altera completamente a dinâmica familiar. A vida não muda apenas para a mãe. A família inteira se reorganiza. Novas responsabilidades surgem, novas rotinas são construídas e novos vínculos precisam ser estabelecidos.

Por isso, nunca me pareceu razoável imaginar que a vida de um homem possa seguir exatamente igual, enquanto a vida da mulher é transformada de forma tão profunda.

Nos últimos anos, esse incômodo ganhou novos contornos. Ao conhecer experiências de outros países e observar organizações que adotavam modelos diferentes, percebi que aquilo que parecia inevitável era, na verdade, uma escolha social e institucional. Existiam outras formas possíveis de organizar o trabalho, o cuidado e a vida familiar.

Foi então que comecei a fazer uma pergunta simples: se pudéssemos construir o futuro que desejamos, que tipo de sociedade escolheríamos criar?

Para mim, essa sociedade começa por um princípio fundamental: homens e mulheres devem ter as mesmas oportunidades, os mesmos direitos e as mesmas responsabilidades.

Em abril de 2026, o Brasil deu um passo importante neste sentido ao ampliar a licença-paternidade para 20 dias. O avanço merece reconhecimento. Mas também nos convida a refletir sobre o quanto ainda podemos evoluir. Ainda é pouco. A evidência disponível aponta que licenças mais amplas geram benefícios para famílias, organizações e para a sociedade como um todo.

Pais desenvolvem vínculos mais fortes com os filhos e dividem com as mães a sobrecarga física e emocional. Casais constroem relações mais equilibradas. E empresas observam ganhos de engajamento, clima organizacional e desenvolvimento de lideranças.

Uma licença parental verdadeiramente equitativa comunica que o cuidado é uma responsabilidade compartilhada. Posiciona homens e mulheres como seres igualmente capazes de cuidar, acolher, educar e construir vínculos. Em outras palavras, ajuda a redefinir o contrato social que estabelecemos entre trabalho, família e cuidado.

Foi a partir dessa compreensão que, na Roche, decidimos oferecer seis meses de licença parental para todos os colaboradores, independentemente de gênero ou configuração familiar.

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A decisão não nasceu apenas de uma discussão sobre benefícios. Nasceu da convicção de que a equidade não se constrói exclusivamente por meio de discursos ou compromissos públicos. Ela se constrói quando revisamos estruturas que produzem desigualdades e quando temos coragem de substituir modelos herdados por outros mais coerentes com o futuro que queremos criar.

Uma sociedade em que a igualdade não existe apenas na lei, mas também nas estruturas que organizam a vida cotidiana.