Michael Jordan e a amarelinha: geopolítica, soft power e seleção brasileira

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No dia 12 de março deste ano, a CBF divulgou um dos novos uniformes da seleção para a Copa do Mundo ora em curso, sediada nos Estados Unidos, México e Canadá. O traje foi desenvolvido em parceria com a marca Jordan, subsidiária da Nike e associada ao ex-jogador de basquete norte-americano Michael Jordan.

A camiseta, contudo, causou estranhamento em parte da torcida por homenagear um astro de outro país e de outra modalidade esportiva. Mais do que uma escolha estética, ela pode ser lida como uma estratégia alinhada ao histórico da política externa brasileira e às disputas geopolíticas do mundo contemporâneo.

Afinal, em um cenário internacional marcado pela crescente pressão entre as nações, compreender esses gestos exige recorrer não apenas aos canais convencionais entre Estados, mas também à economia política e às dinâmicas que orientam as relações de poder no sistema internacional. Ce n’est pas un t-shirt!

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Após a aproximação da família Bolsonaro com Donald Trump e a aplicação de sanções econômicas ao Brasil como retaliação pela prisão do ex-presidente brasileiro, o encontro entre Lula e o chefe do Executivo estadunidense na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em setembro de 2025, parecia sinalizar uma virada.

Marcado pela moderação, característica da política externa brasileira desde o período do Barão de Rio Branco, o diálogo abriu espaço para uma redução temporária das tensões. Menos de um ano depois, contudo, o cenário havia se revertido. Na Cúpula do G7, em junho de 2026, os dois líderes mal trocaram cumprimentos, e Trump declarou publicamente achar Lula uma pessoa volátil. A sequência ilustra a fragilidade dos canais convencionais da diplomacia, tornando-se ainda mais relevante recorrer a ferramentas variadas de aproximação.

A Constituição de 1988 reforça, em seu artigo 4º, que o país deve orientar suas relações internacionais pelos princípios da defesa da paz, da autodeterminação dos povos e do repúdio à intervenção em outros Estados.

Após o ataque militar conduzido por Estados Unidos e Israel contra o Irã, em fevereiro de 2026, o governo brasileiro se viu, portanto, em um impasse: não poderia criticar Trump de maneira contundente, mas tampouco poderia ignorar ou apoiar os acontecimentos.

Demonstrar desprezo ao episódio, ainda, representaria um risco político, uma vez que Lula buscará a reeleição ao Palácio do Planalto nas eleições gerais brasileiras deste ano e a relação com os Estados Unidos figura como variável relevante no cálculo eleitoral. Dessa forma, o governo condenou os ataques, porém, de maneira moderada e sem citar diretamente o presidente norte-americano, equilibrando os diferentes interesses em jogo.

Vale destacar que os ataques ao Irã não foram episódios isolados, mas ocorreram em meio a outras ações, como a intervenção estadunidense na Venezuela, que resultou na prisão do presidente Nicolás Maduro. Diante desse cenário de retomada dos Estados Unidos como potência militar intervencionista nas relações internacionais, manter o diálogo e formular críticas moderadas, sendo um governo de orientação política distinta, não é suficiente. Torna-se necessário, portanto, valer-se de instrumentos de soft power, diante da disparidade geopolítica entre os países.

Essa estratégia, em contraste com o hard power – caracterizado pela coerção militar e/ou econômica –, refere-se à difusão da cultura, da política e da história de um país por meio de elementos ligados ao entretenimento e ao cotidiano. Um exemplo clássico é a influência do K-pop na projeção internacional da Coreia do Sul, atraindo jovens de diversas partes do mundo por meio da música. 

No contexto da Copa do Mundo de 2026, considerando a tradição brasileira como uma das seleções mais celebradas da história, é possível ler a escolha do novo uniforme como uma tentativa de aproveitar o momento para despertar uma afeição adicional dos anfitriões pela nação sul-americana, ao incorporar à vestimenta o símbolo de um dos maiores atletas do país. Um indicativo do interesse gerado pela campanha foi o fato de o astro da NBA, Luka Doncic, ter utilizado o traje da seleção brasileira em um treino no mesmo dia de seu lançamento.

Em meio a este cenário, a França também aproveitou para demonstrar respeito ao histórico entre os dois países por meio de seu uniforme. A camisa dois da seleção europeia ostenta uma cor esverdeada, enquanto o galo gaulês, uma tonalidade de cobre. Juntas, as cores representam a Estátua da Liberdade, dada de presente pela França aos Estados Unidos na celebração do centenário de sua independência.

Assim, ainda que o governo francês seja enfaticamente contrário às ações norte-americanas atuais, a liberdade artística da camisa dois do vestuário da seleção, bem como o ambiente de fraternidade gerado pela competição esportiva, viabiliza uma aplicação do soft power e da diplomacia entre as nações.

Essa fraternidade esportiva na diplomacia, no entanto, não é algo recente. Após a Revolução Iraniana de 1979, o governo estadunidense cortou as relações com o país, bem como subsidiou o Iraque na guerra contra o vizinho iraniano nos anos posteriores.

Na primeira fase da Copa do Mundo da França de 1998, contudo, ambos os países foram sorteados para o Grupo F, em uma partida que ocorreria no dia 21 de junho daquele ano. A segurança do local foi reforçada, tendo em vista a conturbada relação entre os governos, mas, no início da partida, os jogadores iranianos entraram em campo com buquês de flores para os atletas norte-americanos. Aquele momento ficou marcado como o “Jogo da Paz de 1998”. 

Quase três décadas depois, na Copa do Mundo de 2026, a seleção iraniana voltou a jogar em solo norte-americano em meio a um contexto ainda mais tenso, após os ataques militares de fevereiro deste ano. Desta vez, o gesto não veio antes do apito inicial, mas depois: ao deixar o vestiário do SoFi Stadium, em Los Angeles, os jogadores deixaram uma carta escrita à mão agradecendo à cidade e concluindo com um apelo – “que a paz, o respeito e a amizade prevaleçam entre todas as nações”. O buquê de flores se tornou um bilhete, mas a mensagem era a mesma.

Outro exemplo, ainda mais antigo, refere-se ao dia em que Pelé parou a Guerra de Biafra, na Nigéria. O país africano conquistou sua independência do Reino Unido em 1960, mas, após se libertar do domínio britânico, iniciou-se uma disputa de poder entre as etnias hausa e ibo, esta última da região de Biafra, no sudeste do país. Por ser uma região rica em petróleo, os ibos lutavam pela separação, já que não havia consenso sobre quem assumiria o governo em uma Nigéria unificada.

Enquanto isso, no Brasil, o Santos de Pelé já era mundialmente reconhecido por seu “Esquadrão Branco”, apelido dado à equipe vencedora dos Campeonatos Mundiais e da Libertadores de 1962 e 1963. A fama fez com que o time fosse convidado para uma série de amistosos na África, sendo um deles contra a Seleção do Meio-Oeste, na cidade de Benin, Nigéria, perto da região separatista de Biafra.

Para garantir a segurança dos brasileiros – e também como forma de propaganda da base governista que controlava a área -, foi organizado um cessar-fogo e decretado feriado local para que os habitantes pudessem assistir ao Pelé. A partida terminou em 2 a 1, para o Santos.

Em meio a essas ilustrações, é possível notar que o futebol é, sim, uma atividade esportiva e de lazer, mas também pode ocupar espaços não alcançados pelas tradicionais organizações internacionais. Quem não se recorda da presença da seleção brasileira no Haiti em 18 de agosto de 2004, com o uso estratégico do futebol como instrumento de diplomacia pública e política externa. Também conhecido como o “Jogo da Paz”, na ocasião, a seleção pentacampeã viajou a Porto Príncipe, capital haitiana, para promover uma campanha de desarmamento em meio a uma grave guerra civil. 

O conceito “diplomacia da bola”, nesse contexto, está muito além de uma figura abstrata aprisionada à linguagem. O nome foi utilizado para caracterizar as relações turco-armênias entre 2008 e 2009, nas eliminatórias da Copa do Mundo da África do Sul. Em 1915 o Império Otomano era composto não apenas pela maioria turca, mas também por minorias, dentre elas, a população armênia, cristã. Com o início da 1ª Guerra Mundial em 1914, teve início já no ano seguinte (1915), sob o governo do “Jovens Turcos”, o denominado “genocídio armênio”, com a deportação e execução dos armênios, chegando ao trágico número de vítimas em torno de um milhão e meio de vítimas, sem contar a sobrevivência de milhares de órfãos e que deram início à diáspora do povo armênio. 

O genocídio perdurou entre 1915 e 1923 e até hoje é objeto de luta do povo armênio, tanto da diáspora, quanto da República da Armênia, por seu reconhecimento internacional. 

Posteriormente, o Império Otomano foi dissolvido, dando origem à República da Turquia e a Armênia foi incorporada à União Soviética após um breve período como país soberano (1918-1920). Com o fim da URSS, a Armênia tornou-se independente em 21 de setembro de 1991 e é hoje um país soberano, com sua capital Ierevan, passando a lidar com conflitos armados com seu vizinho Azerbaijão em face da região de Nagorno-Karabakh e sua região Artsakh. 

Embora internacionalmente reconhecida como parte do Azerbaijão, a região possuía uma população de maioria étnica armênia. Em setembro de 2023, após uma ofensiva militar do Azerbaijão na citada região, mais de cem mil armênios étnicos foram expulsos, no que é considerado um exemplo atual de limpeza étnica por especialistas, ignorado pela comunidade internacional. Décadas antes, em 1993, como apoio ao Azerbaijão, a Turquia cortou relações diplomáticas com a Armênia – até os preparativos para a Copa do Mundo de 2010. 

No ano de 2008, tendo em vista uma partida de futebol organizada entre os dois países, o presidente armênio Serzh Sarkisian convidou o presidente turco Abdullah Gul para assistir ao jogo em seu país. Como retribuição, o presidente turco convidou o líder do Executivo armênio para o jogo de volta, no ano seguinte. 

Ainda que, nos gramados, os jogadores não tenham trocado flores, por detrás dos refletores os governos concretizaram um alinhamento temporário, traduzido nos Protocolos de Zurique, cujo conteúdo visava à retomada formal das relações diplomáticas. Os documentos não foram ratificados pelos respectivos legislativos; porém, a aproximação temporária, o simbolismo e o diálogo gerados a partir do esporte foram maiores do que qualquer avanço na esfera tradicional das Relações Internacionais. 

Não obstante o sentimento de fraternidade, o futebol – e as copas – também funcionam como grandes impulsionadores da economia. De acordo com o Fundo Monetário Internacional, no relatório 2022 Fifa World Cup: Economic Impact on Qatar and Regional Spillovers a organização destacou que a Copa de 2022 estimulou cerca de 0,7 a 1% do PIB do Qatar, país sede daquela edição. Além disso, os países vizinhos também foram impactados pelo evento, uma vez que os espectadores aproveitaram a oportunidade para conhecer a região ao redor do centro esportivo.

Essa interdependência econômica gerada pelo esporte conversa diretamente com a teoria da grande ilusão de Norman Angell. Consoante o intelectual britânico, a ideia de que uma guerra seria lucrativa – financeira e politicamente – é uma fantasia. A riqueza moderna não está no solo ou demais recursos físicos, mas no capital e nas relações comerciais cada vez mais interdependentes entre as nações; logo, reivindicar o território de outro país não traria ganhos econômicos reais, apenas desestabilizaria a balança de pesos e contrapesos do comércio e do sistema financeiro internacional. 

Assim como Angell mostrou que a guerra destrói as mesmas redes comerciais das quais o vencedor depende, a ruptura diplomática radical entre países prejudica também os eventos que geram prestígio e renda a todos – inclusive ao mais poderoso. Nenhum país sedia uma Copa sozinho, nem lucra com ela isoladamente.

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O soft power esportivo emerge, dentro disso, como uma resposta racional de quem reconhece essa ilusão: é possível dialogar com o poderoso, preservar os vínculos econômicos e ainda assim manter a própria essência.

Ante o exposto, tem-se que o símbolo de Jordan na amarelinha – ou melhor, na azulzinha – pode ser compreendido não apenas de forma literal, mas também metafórica. Da mesma maneira que a seleção francesa optou pelo uniforme verde e cobre, que a seleção iraniana surgiu com flores e bilhetes, que etnias nigerianas se uniram para assistir a Pelé e que os governos armênio e turco conversaram voluntariamente a partir de jogos das eliminatórias da Copa do Mundo, o esporte e seus pequenos gestos auxiliam na aproximação entre nações imersas em contextos ambíguos de ânsia por parceria econômica e repulsa política.