Copa do Mundo 2026: a propriedade intelectual em campo

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Começa a partida!

Deu-se início ao evento esportivo de maior audiência do mundo, pela primeira vez sediado em três países e com inéditas 48 seleções concorrendo à taça. Mesmo que você não esteja entre aqueles que estão assistindo aos jogos da Copa do Mundo masculina de futebol, é impossível estar no Brasil e não ser puxado para o assunto, convidado a saber dos resultados, das controvérsias, escalações e toda a sorte de informações sobre o torneio (além de ouvir as cornetas, claro).

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A autora desta coluna está no time das pessoas que estão acompanhando e torcendo na Copa do Mundo 2026. Como sempre, os números impressionam, já que estamos falando de um evento que alcança 5 bilhões de seres humanos de acordo com a Fifa (lembrando que somos ao todo 8,3 bilhões no planeta).

Para a final do dia 19.7.26 são esperados 1,5 bilhão de espectadores simultâneos. Entenda: isso é mais que toda a população europeia. A lista oficial da Fifa registra que 101 países transmitirão oficialmente os jogos da competição[1], indicando que vários espectadores não torcerão diretamente para nenhuma das seleções competidoras. Isso é algo visível para 49%[2] daqueles que acompanham o campeonato nas redes sociais e foram impactados por registros de cidades na Índia dedicadas a torcer para a seleção brasileira[3].

A representatividade nas transmissões mundo afora diretamente se conecta com os valores pagos pelas empresas que conquistaram licenciamento desses direitos, sejam eles exclusivos ou não (diga-se de passagem, protegidos pelo regime de direitos autorais). Reportagens indicam que a receita total da Fifa será de US$ 8,9 bilhões, tendo nos direitos de transmissão a maior fatia do total, com US$ 3,9 bilhões.

Números recordes também são percebidos entre os torcedores nos estádios. A presença de público alcançou 3,6 milhões de espectadores, superando os números do Mundial de 1994. Em média, são mais de 64 mil torcedores nos estádios para assistir aos jogos que aconteceram até dia 25.6.2026[4]. Os valores cobrados pelos ingressos também chamaram a atenção da imprensa em 2026: reportagem do The New York Times indicou ter havido substancial aumento de preço ao longo dos últimos torneios[5].

Por diferentes ângulos, portanto, há de se reconhecer que a Copa do Mundo masculina de futebol é um evento ímpar no calendário global. Mas o foco da coluna é discutir propriedade intelectual e o que se pretende no decorrer do texto é mostrar a inovação e criatividade presentes dentro de campo (ou fora dele).

Tecnologia avançada e patenteada

A WIPO (Organização Mundial da Propriedade Intelectual) recentemente divulgou edição de seu Relatório SPARK integralmente dedicado aos direitos de propriedade intelectual no segmento esportivo, centrado nas competições predominantemente humanas[6]. Na visão da entidade, “equipamentos esportivos, materiais, análise de dados, dispositivos wearables, plataformas digitais e tecnologias assistivas representam parte crucial na maneira como esportes hoje são praticados, regulados e percebidos pelos fãs”.

Pelos números apresentados no relatório, que compreende uma análise dos últimos dez anos, a conclusão é que o segmento esportivo tem atraído mais inovação e desenvolvimento tecnológico e criativo se comparado com números gerais dos direitos de PI. Entre 2016 e 2025, houve crescimento de 7,6% no número de pedidos de patente para tecnologias esportivas, frente a 4,4% do número geral. Em números absolutos, isso significa 65.700 invenções protegidas.

O relatório traz ainda números segmentados por esporte. E não, futebol não é a modalidade que mais recebe proteção patentária. No período, a WIPO identificou que 9.669 patentes foram publicadas para invenções do esporte da Copa do Mundo, garantindo a honrosa 5ª colocação no ranking. Isso representa 14% de todas as patentes identificadas. E ainda ganhamos a informação de que o futebol teve mais tecnologias patenteadas que o futebol americano (7.349 patentes).

Em termos de localidades originadoras dessas invenções, China e EUA estão em evidência no relatório com 44% e 24% das patentes, respectivamente. Já a Alemanha é o único país campeão da Copa do Mundo masculina que tem destaque. No país do 7×1 (contra Curaçao!) o futebol é o esporte com mais atividade inventiva dentre as patentes esportivas. A Alemanha também é a sede de duas das maiores titulares das patentes futebolísticas, com Adidas e Puma na 2ª e 3ª colocações, atrás apenas da Nike.

Você pode se perguntar qual é o objeto de proteção de uma patente relacionada ao futebol. O que o relatório da WIPO nos traz são 6 áreas tecnológicas principais, conforme divisão abaixo. Tecnologias de monitoramento de performance são as principais e visam mensurar índices biométricos dos atletas, padrões de corrida, batimentos cardíacos e distancias percorridas. Tais dados são depois levados a extensos sistemas de análise para subsidiar decisões táticas e de performance dos jogadores. Além disso, atenção: há patentes por trás do VAR, sim.

A bola Trionda e o avanço da proteção por design

Dentre os demais direitos de PI avaliados no relatório SPARK 2026 da WIPO, desenhos industriais mostraram especial relevância. Este segmento de proteção foi o que mais cresceu na última década, alcançando 70.300 depósitos. Em termos percentuais, a taxa de crescimento do número de registros aqui foi de 8,3% (quase o dobro se comparado com todas as demais áreas).

O futebol aqui não é dos esportes mais bem colocados, com menos de 8% de representatividade. O pódio dos designs fica com os segmentos de ginástica e fitness, golfe e natação. Mas um item crucial da Copa é objeto de proteção por design: a bola Trionda, da Adidas.

O design internacional DM/241148, referente à bola Trionda junto ao Sistema de Haia (recentemente adotado pelo Brasil) foi depositado em outubro de 2024. Segundo ele, a bola é construída com apenas 4 gomos de poliuretano termicamente unificadas. Trata-se do menor número de faces de composição de uma bola de futebol na história das Copas. Lembra da Jabulani? Ela tinha 10 gomos.

Com sulcos profundos de texturas voltadas para alterar a forma como ela corta o ar e melhorar estabilidade e aderência em condições de chuva, a Trionda representa os três países-sede, com as cores vermelha, verde e azul, além dos símbolos da folha da Maple Tree, uma águia e uma estrela. O nome “tri” + “onda” também remete aos países que sediam a competição conjuntamente.

Reportagem publicada pela MIT Technology Review indica que foram três anos e meio de testes conduzidos pela Adidas, robôs projetados para realizar chutes em diferentes velocidades e treinos realizados em sete estádios das sedes. Todas as informações são tratadas como segredo comercial pela Adidas[7].

DM/241148, junto à Global Design Database

Mas essas não são as inovações da Trionda. A bola da Copa do Mundo de 2026 conta com sensor embutido em um dos sulcos, que está diretamente conectado ao VAR de cada partida. Contrapesos estão presentes nos demais.

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É a chamada Tecnologia Bola Conectada. O sensor conjuga informações transmitidas 500 vezes por segundo que, combinadas com posicionamento dos jogadores e analisadas por IA, garantem maior precisão aos árbitros (e mais e mais dados do esporte para desenvolvimentos futuros). Situações mais complexas como impedimentos e toques de mão poderão ser mais facilmente identificados. Haja inovação!

No próximo texto, a ideia é discutir marcas, direitos de imagem e direitos autorais que vemos enquanto assistimos aos gols. Enquanto isso, boa Copa!


[1] Informação obtida da publicação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual em 10.06.2026. Disponível em https://www.wipo.int/en/web/wipo-magazine/articles/dai-dai-shakira-and-burna-boys-world-cup-song-and-its-ip-rights-99498

[2] Pesquisa realizada pela PiniOn com mais de 1500 pessoas e divulgada no Meio e Mensagem indica o avanço das redes sociais como espaço de discussões sobre jogos da Copa do Mundo. A pesquisa também informa que apenas 23,5% dos entrevistados acreditam no hexacampeonato este ano. Disponível em https://www.meioemensagem.com.br/marketing/brasileiro-quer-o-hexa-mas-so-235-acreditam-na-conquista?ndk=1780002132686_uid_97e77ace_5b98100eb5f21231ba3f7ab6e564397795c0cfc9&utm_source=netdeal&utm_medium=email&utm_campaign=newsletter_diaria_temp&utm_content=newsletter_diaria_temp_2026_05_28_21_02_12&ndc=carolina%40a2clegal.com.br&nduid=web_1780012878710_37201email&ndry=EMAIL&nda=ACTION%3A32374

[3] Indico um dos perfis no Instagram da cidade de Kerala (@bfkerala), que está aficionada pela seleção brasileira.

[4] Dados publicados em reportagem do portal Terra no dia 25.06.2026. Disponível em https://www.terra.com.br/esportes/futebol/internacional/mexico/copa-do-mundo-de-2026-bate-recorde-de-publico-nos-estadios,fe7e879a9be164f4e14db5bcb1d0cc2fi23alfu1.html

[5] Os valores são considerados os mais caros da história de acordo com a reportagem. Disponível em https://www.nytimes.com/athletic/7314930/2026/06/02/world-cup-2026-cost-calculator-dollars/.

[6] Esclarece o relatório que esportes que envolvem motores ou animais (como a Fórmula 1 ou hipismo) não foram consideradas em razão de haver diferentes outros aspectos também passiveis de proteção patentária. O foco foi identificar as tecnologias relacionadas ao jogo competitivo, treinamento e participação de seres humanos. Relatório integral disponível em https://www.wipo.int/edocs/pubdocs/en/wipo-pub-1089-2-26-en-sports-technology.pdf

[7] Reportagem ainda traz informações sobre testes externos realizados por acadêmicos quanto à especificidades físicas da Trionda. Disponível em https://mittechreview.com.br/copa-do-mundo-nova-bola-pode-voar-menos/?utm_medium=email&utm_campaign=infograficos42_bolacopa_19jun26&utm_source=RD+Station