Num cenário global marcado pela disputa por insumos estratégicos de saúde, o Brasil vem consolidando uma política pública pouco visível para a maioria da população, mas decisiva para o funcionamento do SUS: a transformação de plasma excedente de doações voluntárias em medicamentos hemoderivados essenciais.
Em 2025, a Hemobrás alcançou a captação de 214,2 mil litros de plasma oriundos de doações altruístas realizadas em hemocentros públicos. O volume representa um avanço importante para a produção nacional de albumina, imunoglobulina e fatores de coagulação VIII e IX, utilizados no tratamento de milhares de pacientes brasileiros.
Mais do que números, o avanço reforça uma estratégia de soberania sanitária. Em um contexto internacional de pressão sobre cadeias globais de medicamentos e insumos hospitalares, ampliar a capacidade nacional de produção de hemoderivados tornou-se questão de segurança em saúde pública.
Em busca de expandir sua produção, a Hemobrás intermediou um investimento de R$ 116 milhões, através do Novo PAC, para melhorar a capacidade de armazenamento dos hemocentros públicos, visando alcançar 300 mil litros de plasma coletados em 2026. A meta de longo prazo é atingir 500 mil litros até 2030, consolidando a nacionalização de todas as etapas de produção.
Além do recorde de coleta, a Hemobrás também distribuiu 658 mil frascos de hemoderivados para o SUS em 2025, somados a 1,03 bilhão de unidades internacionais de medicamentos recombinantes. Desde 2012, essa operação tem não apenas garantido o abastecimento do SUS, mas também regulado os preços no mercado, beneficiando ainda mais a saúde pública e, também, o caixa do governo federal. Esse processo representa um passo importante para a busca pela autossuficiência na produção desses medicamentos e soberania em saúde para o Brasil.
A trajetória da Hemobrás é marcada pelo avanço da regulamentação das doações de sangue, iniciada pela Lei do Sangue, Componentes e Hemoderivados, a Lei Betinho, que transformou o Brasil em um modelo de hemoterapia ética e segura. A história de Betinho e sua família serve como uma memória carregada de simbolismos sobre a importância desta regulamentação, protegendo tanto doadores quanto receptores.
Embora o Brasil seja um exemplo a ser seguido, em alguns países onde há remuneração pela doação de plasma, especialistas alertam para riscos associados à hiperexploração de doadores vulneráveis. Casos recentes no Canadá reacenderam o debate internacional sobre os limites éticos da mercantilização do sangue. O modelo brasileiro, com seu foco na doação voluntária, garante dignidade e respeito a todos os envolvidos.
A Hemobrás está determinada a utilizar todo o plasma excedente de maneira eficiente na produção de hemoderivados, sempre aberta a novas tecnologias e parcerias.
O apoio do governo federal, por meio do Novo PAC, tem potencializado o impacto positivo da empresa no desenvolvimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde e na diversificação da economia regional. Além dos já citados R$ 116 milhões de investimento nos hemocentros, também foram destinados R$ 850 milhões para a conclusão da linha de produção de imunoglobulina.
Em um mundo cada vez mais dependente de cadeias globais instáveis, investir na capacidade nacional de produzir hemoderivados deixou de ser apenas uma política de saúde. Tornou-se uma estratégia de soberania.