A decisão do governo Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, anunciada em maio e que entrou em vigor em junho deste ano, ultrapassa o debate jurídico. Ela toca em temas centrais da política contemporânea: soberania nacional, segurança pública, economia ilícita e a disputa sobre quem tem o poder de definir os atores da violência.
O anúncio remete a uma longa tradição da política externa norte-americana. Durante décadas, os Estados Unidos utilizaram listas de drogas e organizações criminosas como instrumentos de política internacional, justificando intervenções na América Latina em nome da “guerra às drogas”.
Programas como o Plano Colômbia produziram efeitos duradouros sobre a região e foram frequentemente criticados por ampliar a militarização e a violência. Agora, a categoria “terrorismo” passa a ocupar um lugar semelhante no debate sobre o crime organizado transnacional. No caso brasileiro, a questão não é apenas semântica. PCC e CV são organizações criminosas violentas, com presença nacional e conexões internacionais.
A pergunta é outra: o que muda quando grupos historicamente associados ao lucro ilegal passam a ser enquadrados na categoria de terrorismo? A resposta envolve, antes de tudo, o poder de classificação. Chamar um ator de terrorista não é apenas descrevê-lo; é colocá-lo em um regime jurídico e político específico, com consequências para sanções, cooperação internacional, fluxos financeiros e relações diplomáticas. Esse ponto ganha relevância diante da crescente infiltração do crime organizado na economia formal.
Estudos da Fiesp e da Confederação Nacional da Indústria apontam perdas bilionárias para as empresas e para a arrecadação pública associadas aos mercados ilícitos. Ao mesmo tempo, investigações indicam que facções movimentam recursos em instrumentos financeiros, empresas de fachada e operações de lavagem de dinheiro. Uma classificação como organização terrorista pode ampliar o espaço para intervenções financeiras internacionais e aumentar a pressão sobre o sistema econômico brasileiro.
Mas o debate não se esgota na dimensão econômica. Ele se conecta diretamente à política doméstica. Pesquisas recentes mostram que a segurança pública figura entre as principais preocupações do eleitorado. Em março de 2026, levantamento do Datafolha encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicou que mais do que 60 milhões de brasileiros percebem a atuação do crime organizado em seus bairros.
Nesse contexto, o tema tende a ocupar posição central na campanha eleitoral. É aqui que o texto se desloca para o eixo mais sensível: a disputa entre dois modelos de enfrentamento. De um lado, a promessa de endurecimento penal e de expansão do encarceramento em massa, inspirada por experiências latino-americanas frequentemente associadas ao governo de Nayib Bukele em El Salvador. De outro, a estratégia apresentada pelo governo Lula no programa Brasil contra o Crime Organizado, lançado em maio de 2026.
O programa propõe uma abordagem estrutural: descapitalizar financeiramente as facções, atacar rotas logísticas, integrar inteligência policial, modernizar o sistema prisional e combinar repressão com políticas sociais voltadas à redução da vulnerabilidade de jovens em áreas periféricas. A aposta é que combater o crime organizado exige mais do que aumentar penas; exige reduzir sua capacidade econômica e logística. Resta saber se essa estratégia conseguirá produzir resultados visíveis em tempo político suficiente para influenciar o debate eleitoral.
A classificação norte-americana introduz ainda um terceiro elemento: o patriotismo. Nas ruas, em aplicativos de transporte e em conversas cotidianas, multiplicam-se frases como “são bandidos, não terroristas” ou “cabe ao Brasil decidir como combater seu crime organizado”.
O presidente Lula reforçou essa linha ao afirmar que a soberania nacional é inegociável e ao acusar a família Bolsonaro de buscar interferência externa dos Estados Unidos. Assim, o conflito deixou de ser apenas sobre crime e segurança. Transformou-se também em disputa sobre quem representa o patriotismo brasileiro.
A extrema direita associa a defesa da segurança à sua agenda eleitoral. Será que o governo conseguirá ocupar esse espaço ao combinar a defesa da soberania nacional com uma estratégia institucional de combate ao crime? A resposta dependerá menos da retórica patriota e mais da capacidade do Estado brasileiro de enfrentar organizações criminosas sem abrir mão da soberania, das garantias democráticas e de uma política pública baseada em inteligência, coordenação institucional e resultados concretos.