Tema espinhoso para o presidente Lula, a situação política na Venezuela entrou de vez no debate eleitoral do Brasil após a ação militar americana que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, na madrugada deste sábado (3/1).
Enquanto Brasília ainda trabalhava com informações desencontradas sobre o alcance da operação e o paradeiro do ditador venezuelano – além de ainda engatinhar em uma avaliação sobre as consequências do gesto de Donald Trump em várias áreas –, os principais presidenciáveis brasileiros foram às redes sociais para se manifestar sobre o episódio. A exceção, até o início da tarde, era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que se mantinha em silêncio.
O presidente Lula, com histórico de alinhamento ao chavismo, disse em sua conta no “X” que os bombardeios e a captura de Maduro “ultrapassam uma linha inaceitável”, além de representarem “um precedente extremamente perigoso”.
A ação americana ocorre em um momento de distanciamento entre Lula e o regime na Venezuela, após o descumprimento por parte de Caracas de procedimentos para assegurar a lisura das eleições no país, em 2024. Lula não reconheceu a contestada reeleição de Maduro e barrou a adesão do país aos Brics. Lula tinha falado com ele pela última vez em junho de 2024, até a chamada mais recente de 10 de dezembro para tratar, como disseram fontes do governo, exclusivamente da crise. Mesmo assim, seu nome continua sendo associado pela oposição ao regime autoritário, após décadas de alinhamento.
Dada a rejeição no Brasil ao chavismo, esse tema tem potencial de causar constrangimento para o petista no processo eleitoral. Porém, se houver entre os brasileiros a percepção de que Trump exagera na dose e ameaça a soberania dos países da região, inclusive o Brasil, o efeito pode ser benéfico para Lula, como no caso do “tarifaço”. Ainda é cedo para fazer uma avaliação nesse sentido.
Também ainda é incerto o quanto esse episódio pode esfriar a aproximação entre os presidentes do Brasil e dos Estado Unidos, iniciada em um encontro em setembro em Nova York, nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU.
De lá para cá, foram derrubadas tarifas sobre produtos brasileiros e a imposição da Lei Magnitsky sobre Alexandre de Moraes. Mas nem isso foi capaz de aplacar as desconfianças em Brasília sobre a possibilidade de Trump tentar interferir nas eleições deste ano para tentar colocar no Planalto alguém mais afinado com sua doutrina do que o petista.
A publicação em dezembro da nova estratégia de segurança e política externa dos EUA, que claramente coloca a América Latina como uma área de influência do país, reforçou ainda mais os alertas no Planalto.
Ponto vulnerável para Lula
A Venezuela segue como um ponto de vulnerabilidade do governo Lula. Em vez de funcionar como ativo diplomático, a relação com o país se tornou um flanco exposto, explorado pela oposição para reforçar críticas à política externa e à orientação ideológica do Planalto. Cada novo episódio de instabilidade em Caracas reativa o debate e limita a capacidade do governo de controlar a narrativa.
Lula promoveu neste sábado uma reunião ministerial de emergência para discutir a situação na Venezuela. O ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Sidônio Palmeira, participou do encontro, também virtualmente, assim como o próprio presidente e o chanceler Mauro Vieira, todos fora de Brasília. Sua presença ali era justamente para avaliar eventuais danos eleitorais a Lula. Dentro do Palácio e no Itamaraty, há convicção de que a política externa terá participação inédita nesta eleição.
No plano eleitoral, o desgaste é evidente. A defesa, ainda que indireta, do regime venezuelano enfrenta forte resistência em um eleitorado já majoritariamente crítico e oferece à direita um instrumento poderoso de mobilização política. O tema já deixou de ser periférico e passou a operar como um ativo discursivo para a oposição nas redes sociais.
Um levantamento da AtlasIntel, encomendado pela Bloomberg em novembro passado, já apontava esse clima na opinião pública: na média latino-americana, 53% defendiam uma intervenção militar na Venezuela, contra 35% contrários. Entre os brasileiros, o apoio era ainda maior, chegando a 55%, enquanto entre os próprios venezuelanos o índice era mais baixo, de 43%. Os dados ajudam a explicar por que a Venezuela segue mais como passivo do que como oportunidade política para Lula, agravando ainda mais um ambiente já adverso, marcado pela consolidação de uma onda de governos à direita na região.
Flávio e governadores apoiam ação de Trump
Hoje principal oponente de Lula, Flávio Bolsonaro (PL) atacou Lula para dizer que “defender a soberania de um país é muito diferente de defender a supremacia dos interesses de um regime autoritário”. Seus irmãos, Eduardo e Carlos Bolsonaro, também foram às redes para defender a operação e associar o regime Maduro a Lula.
Mais um elemento que pode puxar a Venezuela para o debate eleitoral: durante o governo Jair Bolsonaro, ainda concomitante ao primeiro mandato de Donald Trump, o Brasil deixou de reconhecer Maduro como presidente da Venezuela, alinhando-se ao americano que ungiu o então presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, como governante do país vizinho. A estratégia acabou não prosperando.
E, enquanto Tarcísio silenciava, três dos governadores presidenciáveis se apressaram em aplaudir a ação americana: Ratinho Jr. (PSD-PR), Ronaldo Caiado (União-GO) e Romeu Zema (Novo-MG) elogiaram a “libertação” do povo venezuelano, sempre pelas redes sociais.
Eduardo Leite (PSD-RS) seguiu outra linha. Criticou a ditadura de Maduro, a exemplo dos demais, mas ressaltou que “a violência exercida por uma nação estrangeira contra outra soberana, à margem dos princípios básicos do direito internacional, em especial o de não intervenção, é igualmente inaceitável”.
Alinhamento de expectativas
A ação militar em terra e a apreensão de Nicolás Maduro e mulher Cilia Flores pelas forças especiais americanas provocam alinhamento de expectativas dentro e fora do país. A extrema direita brasileira tenta apostar nisso para reorganizar seu discurso. Desde que Trump desembarcou da campanha de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, o apoio incondicional ao americano tornou-se ponto pouco pacífico entre bolsonaristas. Para muitos, até mesmo uma obrigação.
Mas ainda é cedo para saber no que vai dar essa crise, porque o discurso é perigoso, justamente pelas incertezas inerentes a essa crise e à imprevisibilidade por trás do personagem que a comanda.
Temor de interferência nas eleições
As redes e big techs, maiores temores do governo desde a posse de Trump, como mostrou o JOTA há um ano, podem ter papel ainda mais importante daqui pra frente.
Existe no governo grande temor de interferência nas eleições brasileiras. E faz parte da estratégia de Lula não se arvorar com os outros latino-americanos contra a Venezuela, ou em favor dos EUA, justamente para evitar o que considera um precedente perigoso.
Em Foz do Iguaçu, na última cúpula do Mercosul, sob a presidência temporária brasileira, um grupo de países divulgou nota sobre Venezuela. Sem apoio do Brasil e do Uruguai. A avaliação do Planalto foi a de que um documento formal do Mercosul nesse sentido poderia ser interpretado por autoridades americanas como sinal verde a uma eventual ação militar contra a Venezuela. Seria o tal precedente dado de bandeja. Segundo interlocutores do governo brasileiro, esse risco diplomático pesaria até mais do que a pressão por uma manifestação conjunta do bloco.
Manifestações dos países
Outros países estão publicando declarações comedidas. A União Europeia (UE) soltou uma nota evasiva em que mostra que a sua relação com os americanos está mal resolvida e não quer provocar muito o líder republicano. Na França, a reação foi mais forte. Mostra a posição histórica do país. Até a líder da extrema direita Marine Le Pen mostrou-se contrária. Ela, desde o início, mostrou-se mais moderada do que Trump, lá atrás, antes de se tornar inelegível. Esse discurso de Trump que ainda divide a direita no Brasil não reverbera da mesma maneira nem nas alas mais radicais francesas.