‘Tarcisismo’ substitui bolsonarismo, põe Lula contra a parede e ameaça seu mandato

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A direita tenta a todo custo encerrar o governo Lula 3 antes da hora. Se não é possível fazer isso não na letra da lei, desde o ponto de vista político a série de derrotas que o governo sofreu no Congresso Nacional recentemente e as crescentes e vorazes críticas à condução da política econômica sugerem que o establishment abraçou com entusiasmo a ideia de que um bolsonarismo “light” é melhor do que ter a centro-esquerda democrática no poder.

Como explicar que até mesmo o sucessor do atual chefe de Estado e governo já foi escolhido em jantares exclusivos? O ungido da vez é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que recentemente falou que é e sempre será bolsonarista, ressaltando que, para ele, o adjetivo indica alguém liberal na economia e conservador nos costumes.

Deixa-se de lado a violência policial e a submissão a igrejas com a qual nenhum conservador de fato concordaria. Tarcísio é cada vez mais vendido como um modelo a ser seguido na administração pública pelos jornalões que, embora não possam fazer frente à fúria das redes sociais, ainda pautam de maneira significativa boa parte da elite brasileira, assim como também são pautados por ela.

Depois de quatro anos de descalabro bolsonarista no poder, não se pode dizer que há ingênuos nessa história. Os que convergem em torno do tarcisismo como uma forma de bolsonarismo light devem ser chamados à responsabilidade. Sabem que o liberalismo econômico tardio proposto pelo ex-militar, que abandonou a carreira e virou funcionário público civil após participar da missão de paz da ONU liderada pelo Brasil no Haiti, não seria eficaz para entregar aumento da riqueza de modo sustentado numa era de crescente nacionalismo econômico.

Ainda que fosse uma estratégia viável atualmente, o tarcisismo na economia não apagaria a falta de preocupação com direitos humanos exemplificada pelos acenos às demandas de grupos religiosos e do retorno da polícia que mata depois de décadas de tentativas relativamente bem-sucedidas de reduzir a letalidade da polícia paulista. Não que a violência policial seja uma exclusividade da direita: basta pensar que os governos do PT na Bahia lideram uma das mais letais polícias do país — isso no estado com maior população preta.

Dito isso, discursos importam. Nesse sentido, o tarcisismo emerge à primeira vista como o bolsonarismo que aceita o diálogo, oferecendo alguma civilidade, em áreas como sustentabilidade, em troca de métodos pouco ortodoxos — ou seja, fora da lei — para satisfazer a sanha reacionária por ordem a todo custo.

Ora, se para alguns setores Tarcísio já ganhou o próximo mandato presidencial, seria interessante antecipar a sua administração. É o que o establishment parece dizer no último mês. Proponho o seguinte para deixar tudo preto no branco (banhado, é claro, com o sangue da carne negra, a mais barata do mercado): vamos institucionalizar o semipresidencialismo no Brasil.

Se tivéssemos um primeiro-ministro de fato cuja nomeação fosse feita pelo presidente, mas dependesse da aprovação do parlamento, Lula poderia adotar uma solução similar àquela adotada pelo centrista Emmanuel Macron, presidente da França, após a vitória da extrema direita nas eleições naquele país para o Parlamento Europeu.

A França é semipresidencialismo raiz há mais de seis décadas — não o simulacro de sistema de governo que temos, em que a chantagem dos picaretas prevalece. No sistema francês, o presidente fica responsável basicamente por política externa e defesa, enquanto as questões internas cabem ao primeiro-ministro, que não necessariamente é do partido do chefe de Estado.

Esse cenário aplicado ao Brasil implicaria em Lula poder jogar o ônus de governar para um primeiro-ministro de direita. Seria o mais justo em vez de debitarem na conta do presidente uma crise fiscal que não existe e tentar emparedá-lo com uma agenda de retrocesso no campo dos direitos humanos.

Tal como se diz na Bíblia que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, poderíamos com o semipresidencialismo deixar claro o que cabe ao presidente e o que cabe à maioria no Legislativo na figura do primeiro-ministro, já que não se governa o Brasil sem sustentação no Congresso Nacional.

Para a direita, porém, uma hipotética instituição de um cargo de primeiro-ministro não seria interessante neste estágio. O que lhe rende dividendos políticos e econômicos é tumultuar o país para, a partir de 2026, impor uma agenda liberalizante mais de 50 anos depois que o primeiro grande experimento neoliberal no mundo foi realizado no Chile sob o autoritarismo pinochetista.

Isso enquanto se desmantela não só a Constituição de 1988, mas toda a construção do Estado nacional brasileiro desde a Revolução de 1930, abrindo margem para uma revisão de nossa identidade nacional. Ela, sim, está fundamentada num discurso hipócrita de sincretismo, mas que é muito mais avançado do ponto de vista da base social e do lastro histórico do que a narrativa do Brasil cristão quer fazer parecer.

As “tarcisetes”, porém, precisam combinar com os russos. Fale para o povo que ele vai ficar sem fundo de garantia: a base eleitoral necessária para chegar ao Planalto não é composta apenas de entregadores que, iludidos, acham que são empresários de si. Fale ainda para o povo que alguns procedimentos no SUS podem vir a ser pagos.

Em círculos à esquerda, muito se fala que Dilma Rousseff sofreu um golpe ao ser “impichada” em 2016. Antes, porém, jogou o país numa recessão: para quem é incompetente como presidente na economia e lhe falta habilidade política, a regra do jogo é a perda do mandato por mobilização popular. Lula, pelo contrário, pode sofrer um golpe, pois está sendo competente. Ainda assim, dia após dia corre o risco de se tornar de fato uma figura decorativa, principalmente se Donald Trump vencer nos Estados Unidos e encorajar o revisionismo bolsonarista por aqui.

Nesse cenário, Lula não seria deposto, mas o Brasil se tornaria ingovernável para abrir caminho para a narrativa de retorno da extrema direita numa versão pretensamente limpinha, lavada não apenas pela matança policial. Não nos esqueçamos do sangue dos mais de 700 mil mortos na pandemia que, sim, ainda tiraria a vida de muitos compatriotas, mas numa escala menor caso Jair Bolsonaro tivesse cumprido o seu papel de chefe de Estado. Havia vacina para salvar vidas. O presidente não comprou.

Já para mudar a mente da elite brasileira de modo que ela aceite um mínimo de padrão civilizacional, não há vacina ou dinheiro no mundo que cumpra essa missão. A alvorada voraz do tarcisismo e das “tarcisetes” na mídia e até mesmo na intelectualidade demonstra isso.