Sem usar tecnologia, advogado não tem paridade de armas, diz Patricia Vanzolini

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“Um advogado que hoje não maneja o uso da tecnologia não está em paridade de armas. Pensar em um profissional que não usa ferramentas de inteligência artificial seria o mesmo que imaginá-lo usando máquina de escrever”, disse Patricia Vanzolini, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo.

Ela fez a abertura e o encerramento, nesta quarta-feira (12/6), do seminário Inteligência Artificial Generativa para Advogados: explorando oportunidades, realizado pelo JOTA, em parceria com a OAB-SP e apoio da Microsoft. Pensada para discutir o uso das tecnologias generativas pelos profissionais do Direito, a programação aconteceu na sede da entidade, no Centro de São Paulo.

Patricia observou na sua fala que o Judiciário e o Ministério Público investem há anos em tecnologia, enquanto boa parte da advocacia ainda via o tema com preconceito. Com a adoção rápida da IA no universo jurídico, se os advogados não estiverem aptos a acompanhar os demais operadores do Direito isso resultará em disparidade de armas e desequilíbrio da balança da Justiça, alertou.

Por outro lado, o momento também oferece uma oportunidade única. Segundo ela, quem se abrir para o uso das tecnologias mais recentes estará em boas condições para competir no mercado de trabalho da advocacia. “Meu desejo é que um advogado que atue sozinho e uma pequena banca tenham condições de concorrer profissionalmente com uma grande banca, porque o trabalho que ele faria sozinho agora também será feito pela tecnologia”, concluiu.

“A teoria é bonita, mas precisamos implementar. Todos os advogados precisam implementar. Vemos os exemplos de grandes escritórios, mas isso tem que chegar a todos os advogados. Não queremos que a tecnologia seja um divisor de águas no mau sentido, deixando à margem quem não tem acesso”, provocou.

De olho no futuro

Em suas falas, a presidente Vanzolini enfatizou o papel da OAB-SP na democratização do acesso à tecnologia e preparo dos profissionais do futuro. “A OAB tem que ser a líder desse processo de conduzir toda a advocacia pra esse mundo da tecnologia pelo bem do sistema de Justiça”, afirmou, relatando investimentos da entidade em formações tecnológicas de advogados em diversas cidades do Estado.

Segundo ela, o objetivo é que as iniciativas em torno do tema alcancem todos os advogados do estado vinculados à Ordem, que hoje são 370 mil. “Temos em São Paulo uma classe extremamente heterogênea de advogados. Muitos advogam sozinhos, em pequenas bancas, no interior, na capital, alguns são jovens e outros experientes e não podemos esquecer que há também profissionais com deficiência”, disse ela.

“E nós, da OAB, temos que dar conta de liderar todo esse contingente rumo ao uso eficaz do mundo tecnológico. Cabe a nós a difusão e  capacitação de conhecimento”, completou. 

Para ela, esse é momento de recuperar um certo atraso que pode ter abatido a advocacia quando se trata de aplicação de novas tecnologias: “A advocacia ficou um pouco para trás nessas iniciativas, e os maiores avanços ficaram concentrados nas grandes bancas, mas não alcançou a massa de advogados. A pandemia nos balançou para entrarmos nesse mundo.” Este seria o momento de correr atrás de uma atualização no mundo da IA e outras inovações que passarão a ser realidade diária.

Ela apontou também para a necessidade de levar em conta os meios materiais e financeiros que precisam ser despendidos para que todos tenham acesso ao uso da tecnologia. Segundo ela, muitos profissionais jovens, que sabem lidar e até mesmo ajudar a desenvolver inteligência artificial generativa (IA generativa) podem ficar de fora desse processo simplesmente por falta de recursos financeiros – para acessar as ferramentas mais avançadas e até criadas especificamente para a área do Direito.

“Nós precisamos e pedimos ajuda. Precisamos da parceria das big techs e das grandes bancas de advocacia. Pedimos ajuda para colocar 370 mil advogados na mesma página quando o tema for inteligência artificial; a jovem advocacia que, às vezes, não têm acesso aos recursos financeiros. Queremos que todos tenham acesso à tecnologia como os juízes têm e como os profissionais de grandes bancas têm. É um grande desafio”, conclamou. 

No encerramento, a presidente disse ter consciência de que o desafio da OAB-SP é grande, mas afirma estar otimista quanto ao futuro da área da advocacia frente aos avanços tecnológicos. Segundo ela, outras iniciativas de difusão de conhecimento estão planejadas, e o foco das ações estará na implementação da tecnologia. 

“Esse foi nosso primeiro evento, mas não será o único. Vamos continuar promovendo, e com as parcerias com as empresas que puderem e quiserem nos ajudar. A tecnologia não pode ser, nesse pais tão desigual, mais um fator de exclusão”, disse. 

IA Generativa para advogados

Além de Patricia Vanzolini, participaram Celso Mori, sócio do Pinheiro Neto Advogados, como keynote speaker; Ricardo Wagner, diretor Copilot da Microsoft 365; Marlos Bosso, arquiteto de soluções no Microsoft Technology Center; e Elias Abdala Neto, VP de assuntos jurídicos e corporativos da Microsoft Brasil; Paulo Silvestre, consultor de Inovação e Desenvolvimento do Machado Meyer Advogados; e Francisco Alexandre Colares Melo Carlos, secretário de Governança e Gestão Estratégica da AGU.