Sem a participação formal dos Estados Unidos no regime do clima, cerca de 75% do PIB norte-americano marcou presença na SB64 em Bonn, a última grande reunião técnica antes da COP31. O grupo America All Inn, que representa 25 estados e movimenta, segundo a própria entidade, um PIB maior do que a economia chinesa, se reuniu com negociadores e especialistas às margens das reuniões para entender o andamento dos processos de negociação em si e de implementação.
Fizeram ainda um briefing sobre o que está acontecendo nos EUA e como a indústria avança. Para além dos estados norte-americanos representados, o grupo afirmou a negociadores ouvidos pelo JOTA que era porta-voz de 300 grandes empresas e pouco mais de 3.000 organizações.
Ainda assim, empresas e associações setoriais evitam posicionar-se diante de câmeras ou manifestar-se de forma veemente em relação a posições do governo Donald Trump, ou até mesmo sobre combustíveis sustentáveis.
A não participação oficial do governo dos EUA deixa no ar uma espécie de fantasma com o qual aprendeu-se a conviver de maneira cautelosa. De um lado, os negociadores normalizaram a ausência. Ao JOTA, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, destacou que a não participação dos EUA é grave, mas que nenhum outro país seguiu o mesmo caminho de retirar-se do acordo de Paris, nem mesmo os aliados mais próximos de Washington.
De todo modo, ressaltou que o mundo passa a ter um novo padrão que segue uma tendência sem volta.
“Não precisamos dos EUA para negociar, mas da economia americana para se movimentar na boa direção”, disse.
Na reunião de Bonn deste ano, houve mudanças importantes. A crise no Oriente Médio e a ameaça de um super El Niño tornaram ainda mais urgente o impulso por ação. Isso fica claro entre as delegações no prédio da ONU nesses últimos dias. Os temas espinhosos — financiamento e combustíveis fósseis — continuam polarizando, mas com a agenda correndo em paralelo a partir dos Mapas do Caminho, acabam por conviver de forma um pouco menos tensa este ano do que em 2025. A agenda de negociações maniatadas, obrigatórias do regime do clima, foi aprovada em menos de 10 minutos. No ano passado, foram quase três dias.
Existe grande expectativa sobre o que estará no Mapa do Caminho sobre a redução da dependência dos combustíveis fósseis. O documento com o qual se comprometeu a presidência brasileira da COP30 deve ser apresentado antes de se passar o bastão aos turcos e australianos em novembro, quando assumem formalmente a presidência da COP31.
O palavreado será importante e indicará a relevância que o tema terá daqui para frente. Ele não está na agenda de negociações oficiais, mas entrou pela primeira vez na lista de eventos paralelos da ONU esse ano. Houve um grande evento inédito, puxado pela presidência da COP 30, sobre transitar para longe dos combustíveis fósseis na programação oficial do Mapa do Caminho, que não tem mandato tampouco, mas que o tema já não é mais um tabu.
“Lógico, com a geopolítica que a gente tem, não quer dizer que a gente tenha um acordo. Os países não não estão nem perto de um acordo. Continua sendo assunto que polariza, um assunto que é difícil para se conversar”, disse ao JOTA a CEO da COP30, Ana Toni.
Segundo ela, depois de Belém, estabeleceu-se que é preciso conversar sobre o assunto de maneira pragmática e não ligado a negociação, mas a prática do que os países já estão fazendo.
“Tem muitos países que estão fazendo eletrificação ou uso de combustíveis sustentáveis ou acabando com subsídios, seja para a produção, seja para o consumo”, disse.