A piora mais forte das expectativas de inflação recentemente vista na pesquisa Focus, feita pelo BC junto ao mercado financeiro, entrou com mais ênfase no discurso de Roberto Campos Neto. E alimentou nova rodada de alta dos juros futuros e as apostas crescentes de que o ciclo de cortes na taxa Selic pode estar, pelo menos por enquanto, sendo encerrado.
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Nos últimos dias, o clima de incerteza com os rumos da política monetária se ampliou. Há claramente uma leitura mais preocupada do BC com os riscos para a inflação, que está incendiando o debate sobre a taxa terminal da Selic e puxando para cima tanto juros como as estimativas para o IPCA.
Não bastassem os dados da Focus terem mostrado nas últimas semanas um salto de 9% para 10% na taxa de fechamento do juro básico neste ano, alguns economistas começam a dizer mais abertamente que a parada vai se dar em 10,5%, o atual nível da Selic.
A piora na inflação esperada para 2025 nas últimas semanas foi relevante, distanciando-a do centro da meta, de 3%. A última leitura da pesquisa semanal já estava em 3,7% e com risco de nova piora, indicado pelo chefe da autoridade monetária. O time do BC, que sempre é muito sensível aos movimentos das expectativas do Focus, também está buscando entender os fatores por trás dessa deterioração, que não é explicada por um único elemento.
A tentativa de um discurso mais convergente da ala de indicados pelo governo Lula para a diretoria do BC parece ter esfriado um pouco a pressão na semana passada. Mas os movimentos mais recentes da Focus e a subida de tom de Campos Neto estão fazendo as taxas de mercado subirem e as apostas se consolidarem em uma Selic mais alta.
As consequências políticas são múltiplas. Na última quarta-feira, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, comentou em audiência pública sobre a meta de inflação “exigentíssima” de 3% que o país tem. Para ele, isso até outro dia seria inimaginável, dado que na história recente em poucas ocasiões isso ocorreu.
A fala de Haddad não passou despercebida pelo mercado. O chefe da Fazenda não avançou no tema. Mas, como em política nada é de graça, a menção provoca reflexões. E, para tanto, é importante lembrar que ele aprovou essa meta no ano passado, após pedido de Campos Neto e uma pressão forte do diretor de política econômica, Diogo Guillen, temeroso de uma piora nas expectativas sem qualquer retorno de queda dos juros. Haddad foi contra a vontade de Lula para atender o BC de Campos Neto, que agora flerta em manter a Selic em 10,5%, com um dos juros reais mais altos do planeta. A mensagem parece evidente.
No dia seguinte, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, também engrossou o coro contra os juros altos. Rival de Haddad e postulante de uma política fiscal mais ativa, o cada vez mais forte ministro de Lula deu um recado ainda mais relevante: em um ambiente de juros altos, o governo é forçado a buscar alternativas para financiar projetos com taxas menores.
A mensagem de Costa, que chegou a citar o BNDES, também é clara. Na falta de um juro normal, o governo vai de subsidiado. Vale lembrar que o BC já tem há algum tempo demonstrado preocupação com a retomada das operações de crédito direcionado (ainda que isso não necessariamente seja subsidiado).
É inegável que a situação dos juros americanos coloca um piso maior para a Selic e aumenta as preocupações com a trajetória de inflação — ainda que a piora recente no câmbio tenha sido relativamente limitada. Também é verdade que a mudança de meta fiscal parece ter isolado em 2024 o processo de melhora nas contas públicas, deixando 2025 e 26 com maiores interrogações.
É possível entender uma postura mais cautelosa do BC. Ainda assim, a sinalização de que a autoridade flerta com a ideia de parar de cortar a taxa básica de juros, e não de manter o ritmo de 0,25 ponto porcentual, parece estar tendo uma consequência mais negativa do que positiva, tanto em termos financeiros como políticos.
Se o caminho for mesmo a parada em 10,5%, vai ser difícil evitar a aceleração da espiral negativa de reações entre governo e BC, cuja resultante provavelmente será um equilíbrio pior para o país. De um lado, ficará mais difícil para Haddad segurar os ímpetos de um fiscal e parafiscal mais agressivos, como sinalizados por Costa. E o BC vai querer reagir a isso, pelo menos enquanto Campos Neto estiver lá.
Ainda falta um mês para o Copom, mas essa é uma reflexão que merece ser feita pelo colegiado, especialmente pelo seu presidente. O BC ainda não se reencontrou na comunicação desde que na decisão dividida reduziu o ritmo de corte na Selic.