Já faz tempo que investidores norte-americanos, por motivos religiosos e morais, não investiam em ativos das chamadas “indústrias do pecado” – tabaco, álcool, jogos de azar e armamentos. Agora, diante dos conflitos globais em curso, a segurança nacional voltou a entrar na agenda de prioridades de inúmeros países, com impactos no mundo, no ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança) e no mercado de capitais.
Os números do setor de segurança são astronômicos e um exemplo vem dos Estados Unidos, que detém 40% do orçamento militar do mundo. Calcula-se que o país gastou cerca de US$ 300 mil por inimigo morto na Guerra do Vietnã, que, ao todo, atingiu a cifra de mais de US$ 160 bilhões. A proposta do presidente Donald Trump para o orçamento de defesa de 2026 chegou ao valor surpreendente de US$ 1 trilhão pela primeira vez na história.
Os países da União Europeia também estão anunciando investimentos em defesa, que somente têm aumentado diante da redução do apoio dos EUA à segurança do velho continente e, consequentemente, com o aumento das ameaças à estabilidade dos países europeus.
De acordo com a Agência Europeia de Defesa, a UE gastou mais de € 392 bilhões em 2025, um aumento de 98% em relação a 2020, dando a dimensão desse crescimento. Os investimentos foram liderados pela Alemanha e França, cujo presidente, Emmanuel Macron, fez pronunciamento recente alertando que a Europa deve se preparar para novos episódios de hostilidade dos EUA, devendo promover efetivas reformas no bloco.
Quando se busca a sustentabilidade em um mundo fragmentado, o debate sobre a inclusão das indústrias de defesa e segurança no ESG não pode ser mais adiado. Não faz mais sentido serem tratadas como incompatíveis com os valores ambientais, sociais e de governança. Este setor e outros que são excluídos, como a mineração, são passíveis, sim, de receberem um choque de conformidade por meio das práticas ESG.
Nesse sentido, foi divulgada no Reino Unido a Carta ESG da Defesa, na qual a indústria de defesa britânica se compromete a “impulsionar a ambição e a ação em prol da sustentabilidade”. Promovendo maior transparência, os signatários da Carta comprometem-se a trabalhar em conjunto para cumprir os compromissos focados na transição climática e em tecnologias limpas, no impacto social, na governança e ética.
No pilar ambiental, quer descarbonizar, contribuir com tecnologia limpa e aumentar resiliência das cadeias de suprimentos voltada aos minerais críticos. No social, promover diversidade e inclusão e na governança, aumentar a resiliência cibernética e ter sistemas sustentáveis de controle de exportações.
A carta constitui um aceno importante em um mundo em conflagração militar, no qual é preciso entender sobre quais critérios éticos estamos falando. Afinal, as empresas de segurança também precisam gerenciar seus riscos, proteger sua reputação e construir uma imagem de confiabilidade para as partes interessadas. Não faz mais sentido excluir o setor do âmbito ESG, até porque com a inclusão passariam a refletir novos valores em suas tomadas de decisões estratégicas e isso seria positivo para todos.
Outro ponto importante é a mudança na percepção dos investidores diante do setor de defesa, que sofreu uma reviravolta com a invasão da Ucrânia pela Rússia, porque esta vem sendo uma guerra para proteger a estabilidade geopolítica da Europa e os valores democráticos. Dessa forma, a defesa deixou de ser apenas um gasto militar para se tornar um ativo público essencial para a sobrevivência de países e dos povos.
No relatório da PwC que analisou se o setor de defesa é compatível com o ESG há um dado interessante: o número de investidores institucionais que investem nas 16 principais empresas de defesa aumentou 6% em 2022, com tendência de crescimento.
O documento revela que há alguns critério de exclusão do ESG, caso de empresas “envolvidas com armas controversas, armas nucleares, urânio e/ou energia nuclear”. Na conclusão, o relatório avalia que “as empresas de defesa devem aproveitar o momento atual implementando estratégias individuais que englobem medidas ESG específicas para a defesa, relacionadas à defesa e gerais. Isso pode não apenas posicionar bem a indústria de defesa para os futuros mercados de capitais, mas também apoiar seu papel na promoção do progresso sustentável”.
É importante ter em mente que o protagonismo do setor de defesa ampliou-se ao tornar-se estratégico para assegurar a estabilidade institucional no mundo, carregando responsabilidade social, política, ética e geopolítica, com peso na prevenção de conflitos e na defesa dos direitos humanos, uma vez que regimes democráticos precisam ter a capacidade de se defender militarmente para continuarem existindo.
Há quem se preocupe com um possível greenwashing (prática enganosa de marketing adotada por algumas empresas para parecerem mais sustentáveis do que realmente são) das indústrias do setor de segurança. Na verdade, essa questão não deve ser vista com desconfiança diante do fato de as corporações de segurança estarem incluindo elementos de sustentabilidade em seus relatórios corporativos, apontando “eficiência energética”, “redução de emissões”, “responsabilidade ambiental” e “tecnologias limpas”. No entanto, tais iniciativas tratam do uso de energia renovável em instalações administrativas — não estão incidindo sobre testes militares, logística de guerra e zonas de conflito.
O setor de segurança também busca se alinhar às agendas globais, ao mencionar metas voltadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), embora haja muitas barreiras a superar, uma vez que somente na área ambiental os conflitos armados causam degradações ambientais e emissões de Gases de Efeito Estufa, contaminação do solo, entre outros danos.
Ao aderir às diretrizes estratégicas do ESG, o setor de segurança terá de construir uma trilha de transição para a conformidade ambiental, social e de governança, na qual as alegações de sustentabilidade tenham como base evidências capazes de resistir ao aumento de checagem legal e regulatória, devendo contribuir para vencer alguns dos maiores desafios sustentáveis do planeta.