A contabilidade de impacto (impact accounting) no ESG é uma prática que visa criar estruturas padronizadas e escaláveis na cadeia de valor das empresas. Ocorre quando os relatórios financeiros das corporações são aplicáveis aos seus reportes ambientais, sociais e de governança (ESG).
Até recentemente, pensava-se ser incompatível unir a complexidade dos sistemas contábeis com as estruturas dos relatórios ESG – ainda dispersos em diferentes frameworks – para chegar a uma apresentação concreta sobre a sustentabilidade corporativa. A realidade vem provando o contrário.
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Ao priorizar o desafio, a contabilidade de impacto vem ganhando espaço na academia e nos chamados white papers, relatórios informativos que analisam determinada questão e apresentam metodologias e soluções na busca de convencer um público-alvo:
“O capital humano, social e natural são insumos essenciais para os impactos da sustentabilidade, mas não são classificados como ativos na contabilidade convencional, apesar de seu impacto significativo na criação de valor empresarial. A contabilidade de impacto muda essa dinâmica e se baseia em metas de sustentabilidade, ambientais, sociais e de governança (ESG) existentes”.[1]
Ao constituir uma métrica holística em evolução, a contabilidade de impacto amplia a visão corporativa e busca soluções mais inovadoras, capazes de mensurar o valor criado pela companhia, ensejando uma espécie de monetização do ESG, que já se faz presente em alguns relatórios, como da União Europeia, pela Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD).
Um comparativo pode deixar a questão mais clara: se ativos públicos, como estradas, aeroportos, portos, companhias de energia e saneamento são passíveis de monetização, o mesmo pode ocorrer com o capital natural, social e humano de uma empresa.
As companhias que decidiram investir em sustentabilidade têm aumentado o valor de sua marca e suas vantagens estratégicas, uma vez que o ESG não é somente uma questão de conformidade ou de recursos investidos em sustentabilidade. Pela contabilidade de impacto, os investimentos em ESG podem ser traduzidos em valor pela monetização dos fatores ambientais, sociais e de governança, permitindo quantificar o impacto e a lucratividade dessas estratégias.
A contabilidade de impacto vinha sofrendo do mesmo problema dos frameworks ESG – diversidade de métricas e estruturas à disposição no mercado. Contudo, práticas contábeis estão começando a consolidar padrões comuns e se tornar viáveis.
Algumas organizações que desenvolvem métricas de sustentabilidade, como a Sustainability Accounting Standards Board (SASB), em parceria com o Conselho de Normas de Sustentabilidade (IFRS), vêm promovendo a integração de métricas ESG a demonstrações financeiras, possibilitando uma visão mais integrada de criação de valor que as apresentadas pelas demonstrações financeiras tradicionais ou pelos relatórios ESG.
Isso vem sendo feito pelo desenvolvimento de processos e conformidade de regulações ESG. A mágica acontece a partir do processo de avaliação da materialidade, que é uma metodologia empregada pelas corporações para identificar fatores ESG e medir o impacto de sua gestão voltada à sustentabilidade.
Em sintonia aos relatórios financeiros, a avaliação de materialidade está presente nas Normas Europeias de Relatórios de Sustentabilidade (ESRS) e seguem etapas, permitindo que os dados sejam comparáveis. Inicialmente, as empresas precisam identificar os pontos mais importantes de seu negócio com o conjunto de fatores da União Europeia, que utilizam como critérios os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, como uma espécie de base de dados de referência.
A segunda etapa de avaliação é realizada por meio de pesquisas e entrevistas com stakeholders, que permitem reverter informações qualitativas em dados quantitativos monetizados. O processo faz uma comparação por setor, avaliando indicadores ambientais e sociais da empresa com seus concorrentes, onde se concentra seus maiores impactos sociais e ambientais e emprega métrica financeira para identificar tópicos materiais com métricas sustentáveis.
Na sequência, define-se a lógica de avaliação com base nos dados coletados, promove-se a análise de como os stakeholders (partes interessadas) são afetados pelas medidas ESG adotadas, dados apurados por meio de pesquisas de opinião, criação de uma matriz de materialidade para visualizar resultados e, finalmente, a avaliação da materialidade, valorando as atividades da empresa para a sociedade. Pode-se, por exemplo, “traduzir” as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) em unidade monetária para facilitar a comparação.
Moto contínuo, permite avaliar o impacto que as emissões causam, como afetam a saúde das pessoas, das comunidades onde a empresa está inserida, segundo os escopos 1, 2 e 3, que passam a ter um preço, baseado no custo social do carbono, proposto pela Fundação Internacional para Valorização de Impactos (IFVI) e Aliança para Equilíbrio de Valor (VBA), outra frente de atuação da contabilidade de impacto.
No escopo 1, temos as emissões diretas da empresa ligadas à sua operação. No Escopo 2, as emissões indiretas, como geração de energia, água, refrigeração, etc. E no Esopo 3, as emissões indiretas presentes, por exemplo, na cadeia de fornecedores. Cada tonelada métrica de carbono passaria a ter um valor de referência.
No fator social, ao mensurar os salários da força de trabalho de uma empresa, a contabilidade de impacto não se concentra no efeito que representa o custo dessa mão de obra para a operação da empresa, mas leva em conta se o salário é suficiente para propiciar bem-estar ao trabalhador ou pode prejudicar o seu acesso a um padrão de vida digna. Os números de referência variam de acordo com o PIB de cada país.
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A conexão entre o ESG e a contabilidade de impacto tende a dar suporte para metodologias que cheguem a conclusões de desempenho mais precisas, uma vez que mensurar o ESG continua a ser um desafio para as empresas. A opção estratégica pela sustentabilidade vem acompanhada de obrigações financeiras que não podem ser excluídas das estruturas dos relatórios ESG, que serão cada vez mais rigorosos, em decorrência da possível sinergia instaurada pela Contabilidade de Impacto.
Diante da evolução das métricas ESG, podemos nos valer da comparação de Nuno Moreira da Cruz, professor da Católica-Lisbon, que foi assertivo ao comparar a história dos Três Porquinhos ao compromisso divergente das empresas em torno da sustentabilidade.
Segundo ele, o primeiro porquinho representa as empresas que construíram sua casa de palha, de estrutura leve e pouco resistente, que desabou ao primeiro sopro do lobo mau, ou seja, são corporações que aderiram à sustentabilidade sob os ventos do greenwashing.
O segundo porquinho construiu uma casa de madeira, com estrutura mais sólida, mesmo assim com vulnerabilidades. Seriam as empresas que divulgam relatórios de sustentabilidade, mas reduzem sua ambição sustentável em mercados considerados sensíveis.
O terceiro porquinho optou por uma casa de tijolo, bem sólida. Retrata as companhias nas quais a sustentabilidade integra o modelo de negócios e propicia vantagens competitivas, dotadas de relatórios ESG sólidos. Para essas, a contabilidade de impacto agrega valor.
A incorporação da contabilidade de impacto nos relatórios ESG tende a se constituir em uma tendência global e atenderá de forma mais ampla a demanda por informações de práticas sustentáveis, especialmente para investidores e agências reguladoras, entre outros stakeholders.
Dessa forma, auxiliará as corporações a se anteciparem aos desafios das mudanças climáticas, regulatórias e de transição para a economia de baixo carbono, porque os riscos e oportunidades exigem cada vez mais informações ESG integradas às demonstrações financeiras no sentido de que sejam relevantes, comparáveis e confiáveis.
[1] https://www.thomsonreuters.com/en-us/posts/esg/impact-accounting/
[2] https://clsbe.lisboa.ucp.pt/news/sustainability-donald-trump-and-three-little-pigs-0