O avanço do crime organizado e o peso da segurança pública na eleição

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Em 2008, foi publicado pela Editora FGV o livro Não matarás: desenvolvimento, desigualdade e homicídio, do cientista social Gláucio Soares, um dos precursores dos estudos empíricos sobre violência e segurança pública no Brasil. Nele, o pesquisador discorre sobre nuances da criminalidade ainda pouco debatidas no âmbito acadêmico sob a ótica da pesquisa científica. O autor introduziu na academia uma perspectiva sistematizada sobre o tema, influenciando, até hoje, a maneira pela qual grandes institutos de pesquisa examinam a segurança pública, à luz de evidências.

Nesse contexto, a realidade, além de ser observada, pode ser medida, testada e comparada. A sistematização dos dados, sejam eles quantitativos ou qualitativos, ocupa um lugar central na análise da criminalidade e deve pressupor  a tomada de decisão.

O Atlas da Violência 2025 e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, por exemplo, há anos vêm evidenciando um cenário preocupante no Brasil, que em 2024 registrou queda nas mortes violentas intencionais e alcançou a menor taxa de homicídios dos últimos 11 anos. Contudo, apesar desse decréscimo, somente neste mesmo ano foram contabilizadas cerca de 44 mil mortes violentas no país, o que ainda coloca o Brasil entre as nações com as maiores taxas de homicídio do mundo.

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Em grande medida, esse problema é atribuído à presença de um poder paralelo imposto pelo crime organizado. Conforme pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 68,7 milhões de brasileiros, ou 41% da população, afirmam conviver diariamente com a presença do crime organizado nos bairros onde vivem. Além disso, 35% dos entrevistados acreditam que essas organizações influenciam diretamente regras, decisões e a dinâmica das comunidades locais.

Aproximadamente 12,5% disseram ser obrigados a contratar serviços indicados por criminosos, como internet, água ou energia, enquanto 9% relatam pressão para consumir determinados produtos ou marcas. O medo também se manifesta de forma intensa: 75% evitam circular por determinadas áreas devido à violência e 71% das famílias temem que parentes se envolvam com o tráfico de drogas, evidenciando o poder social e territorial dessas organizações em diversas comunidades brasileiras. O medo faz parte do cotidiano dessas pessoas, cuja vida já se encontra sob jugo desigual entre o império do crime e o Estado.

Cidades como Morada Nova, no Ceará, onde o avanço do conflito entre facções levou moradores a abandonarem suas casas e contribuiu para o esvaziamento do distrito de Uiraponga, ou Cabedelo, cidade turística da Paraíba, onde foi instalado um verdadeiro “home office” do crime organizado, ilustram a nova dinâmica da criminalidade no país: alta capilaridade territorial com benefícios difusos. Em Cabedelo, lideranças criminosas controlavam remotamente o território e infiltravam-se em empresas contratadas pela prefeitura.

Durante muito tempo, a violência e a criminalidade foram percebidas como problemas restritos aos grandes centros urbanos e tratadas pelos gestores públicos como temas secundários na agenda governamental. Em uma visão substancialista, entendia-se que seriam apenas consequências das desigualdades sociais e das idiossincrasias econômicas.

Todavia, estudos empíricos iniciados há décadas por pesquisadores como Soares demonstram que existem outras dimensões, isto é, variáveis, que precisam ser consideradas para compreender a dinâmica real da criminalidade no Brasil para só assim elaborar políticas públicas eficazes, efetivas e eficientes.

Todo esse contexto tem levado os eleitores a pressionarem os candidatos por soluções. Segundo pesquisas qualitativas da Quaest, a criminalidade e a violência aparecem entre os problemas que mais preocupam os eleitores, fazendo da segurança pública uma das principais políticas reivindicadas da atuação estatal.

Entretanto, observa-se que a percepção sobre o tema varia conforme a classe social do entrevistado. Aqueles inseridos em contextos de maior vulnerabilidade social tendem a condenar a violência policial e reivindicar uma segurança pública mais estratégica e menos truculenta. Já os grupos economicamente mais estáveis costumam demandar um Estado mais punitivista e maior proteção patrimonial.

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Vencerá o candidato que mais pautar a segurança pública em seus discursos? Não necessariamente. No campo do debate político, tende a ser melhor percebido aquele que souber posicionar estrategicamente a discussão sobre um tema multidimensional.

Para que haja uma mudança efetiva na realidade da segurança pública brasileira, faz-se necessário que os incumbentes e demais candidatos sigam uma máxima defendida por Maquiavel no século 14: cercar-se de pessoas competentes. E quem seriam essas pessoas? Aquelas que, como fazia o professor Gláucio Soares, dedicam-se à compreensão das políticas públicas a partir de evidências.