Minerais críticos da América Latina: desenvolvimento autônomo ou dependência ampliada?

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O elevado potencial mineral da América Latina, ao mesmo tempo em que fornece insumos essenciais para avanços tecnológicos capazes de alavancar o desenvolvimento econômico e a transição energética na região, também atrai interesses que representam um grave risco a uma inserção internacional autônoma dos países latino-americanos.

Os minerais críticos[1] da região tornaram-se centrais na estratégia dos EUA de recuperar poder relativo frente à China e à Rússia, além de serem vitais para a projeção de seu poder bélico em meio à escalada dos conflitos globais. Nesse contexto, intensifica-se a ofensiva estadunidense para assegurar o acesso e o controle desses recursos, impondo grandes desafios à região.

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Em 4 de fevereiro, como um dos principais resultados da Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos, em Washington, os EUA lançaram o Fórum sobre Engajamento Geoestratégico em Recursos (FORGE) e iniciaram as tratativas de afiliação ao mecanismo. A conferência reuniu delegações de 54 países, viabilizou a formalização de acordos bilaterais e memorandos de entendimento, além de lançar linhas de financiamento para projetos no setor.

Dos oito países da América Latina, quatro – Argentina, Equador, Paraguai e Peru – já firmaram memorandos de entendimento. Bolívia, Brasil, República Dominicana e México também participaram, mas ainda não celebraram instrumentos dessa natureza.

A iniciativa está alinhada à National Security Strategy (NSS) publicada em dezembro de 2026, que estabelece como prioridade o acesso seguro a cadeias de suprimento e materiais críticos. O documento conclama à recomposição da autonomia em recursos essenciais à defesa e à economia, prevendo, para isso, a ampliação do controle sobre o fornecimento de minerais críticos. Nesse contexto, a América Latina passa a figurar como um espaço geoestratégico primordial, ensejando, sob a ótica estadunidense, a reafirmação de sua primazia regional, expressa na atualização da Doutrina Monroe pelo “Corolário Trump”.

A região é uma das mais ricas em reservas e produção de minerais críticos, com tendência de crescente relevância no mercado global. Segundo o Global Critical Minerals Outlook 2025, da International Energy Agency (IEA), no segmento de minerais energéticos, a América Latina figura entre os principais polos de produção de lítio e cobre, além de concentrar reservas expressivas de níquel, grafite, cobalto e terras raras. A região também reúne minerais críticos associados a distintas cadeias industriais, como prata, zinco, bauxita, manganês e metais do grupo da platina.

De acordo com o Statistical Review of World Energy 2025, do Energy Institute, a América do Sul e a América Central responderam por 70% da expansão global da produção de lítio em 2024. Argentina, Brasil e Chile concentram a produção regional, respondendo por cerca de 35% da oferta mundial, enquanto detêm aproximadamente 49% das reservas globais do mineral.

Quanto ao cobre, Chile e Peru somam 35% da oferta e 30% das reservas mundiais. O Chile, isoladamente, responde por 23,3% da produção global de cobre e detém quase 20% das reservas, a maior do mundo. Peru e Chile, juntos, também concentram 17% da produção e 15% das reservas globais de zinco.

Dados da mesma fonte posicionam o Brasil como detentor das segundas maiores reservas mundiais de terras raras (23,3%) e grafite (19%), superado apenas pela China. Nesse cenário, o país emerge como uma peça-chave na reconfiguração das cadeias de suprimentos liderada pelos EUA. Considerando que o país classifica a concentração da oferta em território chinês como um grave risco geoeconômico, as jazidas brasileiras passaram a ser vistas como ativos altamente estratégicos para a segurança nacional americana.

Além disso, o Brasil é o principal fornecedor mundial de nióbio, mineral empregado na siderurgia avançada e em tecnologias de ponta emergentes, como as de supercondutores, baterias ultrarrápidas para veículos elétricos e eficiência energética de data centers. Segundo Mineral Commodity Summaries 2025, do United States Geological Survey (USGS), o Brasil responde por cerca de 90% da oferta global desse metal.

O relatório The State of Commodity Dependence 2025, da UNCTAD, aponta que na última década o elevado nível de dependência de exportações de commodities na América do Sul se aprofundou como padrão de especialização. Dos 12 países analisados, todos são classificados como altamente dependentes – com dependência superior a 80% – exceto o Brasil, que registrou 75,3% no triênio 2021-2023.

Outros estudos do organismo também apontam que, apesar da inserção – atual ou potencial – como exportadores de minerais e da aptidão para geração de energia limpa, tais países não figuram como ofertantes relevantes de bens e equipamentos vinculados à transição energética. Ou seja, predomina uma atuação em elos primários da cadeia de minerais, com restrições estruturais à internalização de etapas de refino.

Apesar da atual crise do multilateralismo, o Sul Global tem feito avanços em iniciativas de cooperação para promover uma mudança em seu modelo de inserção externa. Na Cúpula do G20 em Joanesburgo, em novembro de 2025, foi criado o G20 Critical Minerals Framework, concebido como uma diretriz para promover cadeias de valor de minerais críticos mais sustentáveis e resilientes, porém que incentive também a agregação de valor local.

A iniciativa dialoga com a defesa de uma transição energética justa que não inaugure um novo ciclo colonial. Contudo, seu caráter não vinculante, isto é, sem estabelecer obrigações formais, pode limitar resultados concretos no curto e médio prazo.

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Dada a crescente projeção global sobre os minerais críticos da América Latina, é imperativo que os países da região alinhem um posicionamento frente às pressões geopolíticas. À exemplo de experiências recentes na África, a integração regional pode oferecer oportunidades para a agregação de valor local e o desenvolvimento industrial.

Contudo, antes de avançar com compromissos bilaterais, convém fortalecer capacidades estatais de regulação e investimento e, avaliar alternativas que internalizem o processamento e o refino dos minerais críticos, mitigando a primarização e possibilitando um desenvolvimento autônomo.


[1] Minerais críticos são definidos como aqueles de elevada relevância econômica cujo abastecimento está sujeito a riscos significativos de interrupção. São recursos utilizados em setores estratégicos, incluindo tecnologias digitais, inteligência artificial, indústria automotiva, segurança, defesa e aeroespacial. Elementos de Terras Raras também são frequentemente classificados como minerais críticos.