Juristas negras em prosas: ‘Tem gente’

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”Juristas negras em prosas” é uma série de contos e crônicas sobre racismo e sexismo no sistema de justiça. As narrativas e personagens são fictícias, mas inspiradas em histórias reais vivenciadas por juristas negras de todo país.

A ideia é falar sobre racismo e sexismo através de recursos literários que transportem as pessoas para as situações vivenciadas cotidianamente por mulheres negras que exercem profissões jurídicas.

Com isso, pretendemos não apenas acolher juristas negras que sofrem diariamente as mais diversas violências, mas também estimular o exercício da empatia e a prática do antirracismo pelas pessoas brancas.

As narrativas contarão histórias que curam ao romper com o silêncio e serão publicadas uma vez por mês nesta coluna Nós-Outros, do JOTA.

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‘Tem gente’

Toc toc. Ela pensa que só queria mais cinco minutos da paz que só encontrava dentro do minúsculo e elegante banheiro do escritório de advocacia. Fazia algum tempo que ela estava parada, olhando para a imagem no espelho e se perguntando: “O que você está fazendo aqui?”.

Há dois anos ela se formou em direito e foi aprovada no exame da ordem. Agora era advogada, “com OAB e tudo”, mas continuava a ouvir dos colegas do escritório: “Conceição, o café acabou”, “Conceição, coloca esse lixo pra fora”, “Conceição, traz água para mim”.  Às vezes ela só queria sumir, estava cansada de tudo aquilo.

Conceição ligou a torneira e o contato com a água a fez se lembrar do dia em que começou a trabalhar naquele lugar. A vaga era de auxiliar de escritório, mas na sua carteira ficou anotado “auxiliar de serviços gerais”. Disseram para não se preocupar com o nome, que era só uma formalidade, mas desde o primeiro dia ela fazia o trabalho que ninguém queria fazer, da xérox de processos à faxina.

Toc toc. Ela tentava respirar fundo enquanto se lembrava da surpresa que gerou quando disse que iria fazer faculdade de direito. “Você pensa que é fácil?”, ela ouviu mais de uma vez. Não, ela sabia que não seria fácil, mas o que tinha sido fácil para ela? Nada, absolutamente nada.

Criada no morro, Conceição tinha a estranha sensação de que estava destinada a domar não um, mas dez leões por dia. Às vezes se pegava pensando: “Se o meu pai não tivesse ido embora, a minha vida teria sido mais fácil?”. Ela afastava rapidamente essa ideia da cabeça, que lhe soava como ingratidão às mulheres que lhe dedicaram a vida, em especial sua mãe e sua avó.

Toc toc. As batidas se tornaram mais insistentes, mas ela não conseguia se mexer. Não era a primeira vez que se sentia paralisada. Seus braços e suas pernas pareciam dormentes, o ar não preenchia os pulmões. “O que está acontecendo comigo? Desaprendi a respirar?”, pensou. Ela tentou responder às insistentes batidas, mas a voz não saiu.

Toc toc. Ela olhou mais uma vez para a imagem no espelho, os cabelos alisados, o terno preto, a maquiagem que a deixava pálida, tudo como deveria ser. Algumas rugas começavam a surgir no canto dos olhos, afinal faria 40 anos dali a dois meses. Conceição só se permitiu ir em busca do sonho de ser advogada depois que seu filho estava formado.

A gravidez na adolescência a deixou apavorada, principalmente depois que o pai da criança desapareceu. Hoje o seu filho era seu orgulho, um jovem educado, honesto e bem quisto. João foi a primeira pessoa da família a ingressar na faculdade e ao pensar sobre isso, os olhos de Conceição se encheram d’água.

Toc toc. Ela desligou a torneira e passou a enxugar as mãos. Parecia que o sangue estava voltando a circular. A imagem do seu filho fez com que a respiração fosse voltando ao normal, como se de repente ela soubesse o que estava fazendo ali. Toc toc. Finalmente Conceição conseguiu responder: “Tem gente”.

“Conceição? É você? E negro agora é gente?”, ouviu a voz do seu chefe dizer, sendo seguida por gargalhadas dos demais colegas. Foi como se o chão tivesse sumido dos seus pés. Sua expressão suave ganhou uma rigidez que não era habitual. Raiva, indignação e dor era o que ela sentia. Tudo misturado.

Respirou fundo, abriu a porta do banheiro e se deparou com o chefe ainda rindo. Olhou-o nos olhos, sabendo que não poderia alterar o tom de voz ou sairia como a raivosa da situação. Em um tom suave e ao mesmo tempo cortante, disse: “Eu sou gente sim, dr. Diego. E se o senhor não consegue reconhecer a minha humanidade, eu não tenho o que fazer aqui”.

“Calma, Conceição. Foi só uma brincadeira”, ele disse, enquanto ela caminhava para sua mesa de cabeça erguida, olhando cada um daqueles sorrisos que começaram a desaparecer diante da fúria silenciosa que emanava. Tudo tinha limite, até a sua conhecida paciência tinha limites, que foram atravessados naquele momento. “Hoje em dia não se pode mais brincar com nada”, disse ele.

Ela pegou a sua bolsa, caminhou em direção à porta a passos firmes e largos. Antes de sair, olhou para ele e disse com uma voz calma e cortante: “Não, nobre colega, isso não foi uma brincadeira, mas vai lhe custar caro”.