Faltam oito meses para o primeiro turno das eleições.
Com revelações e reações diárias sobre a investigação envolvendo fraudes no Banco Master, está claro que este será um dos assuntos a mobilizar os candidatos.
Todos os lados já executam estratégias para lidar com o tema, e você fica sabendo as movimentações de PT, PL e do centrão na nota de abertura, com apuração de Marianna Holanda e Fabio MuraKawa.
No Supremo, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli aproveitaram um julgamento para rebater as críticas relacionadas ao Master. E o presidente, Edson Fachin, cancelou um almoço que estava marcado para semana que vem para tratar do código de conduta articulado por ele.
Victoria Lacerda colaborou nesta edição.
Boa leitura.
1. O ponto central: Todos juntos
Com boa parte da classe política de Brasília enrolada na crise do Master, o escândalo já desponta como um dos grandes temas na largada da campanha presidencial deste ano, Marianna Holanda e Fabio MuraKawa escrevem no JOTA PRO Poder.
- Aliados de Lula e Flávio Bolsonaro preparam suas armas para o embate, que deve ganhar corpo a partir de abril, no período pré-eleitoral, e com o avanço das investigações e desdobramentos no Congresso.
Por que importa: Uma avaliação muito ouvida na Praça dos Três Poderes é que o escândalo tem potencial de se tornar uma nova Lava Jato, ou até maior, dado o escopo de políticos e autoridades que demonstram algum grau de envolvimento com Daniel Vorcaro.
- A gama é tão vasta que muitos acreditam que, no fim das contas, haverá um grande acordão da classe política para encerrar o assunto “da melhor forma possível” — ou seja, sem grandes consequências jurídicas para os envolvidos.
- A dúvida é sobre se será possível conter as operações da Polícia Federal, órgão em tese independente, e consequentemente o noticiário em torno delas.
Aliados de Flávio têm claro que o tema “corrupção” prejudica a imagem do PT, após décadas de desgastes que vão do mensalão ao petrolão.
- Assim, a ideia é explorar ao máximo possível os vínculos de Vorcaro com integrantes do governo, como o contrato de consultoria de Ricardo Lewandowski e os elos do PT baiano com Augusto Lima.
- Aliados de Flávio e Jair Bolsonaro também exploram o encontro de Lula com Vorcaro fora da agenda em 2024 para tentar arranhar a imagem do petista.
Integrantes do Planalto e parlamentares petistas acreditam que a pior estratégia no momento seja ficar na defensiva, embora ninguém acredite que uma CPMI em ano eleitoral seja benéfico.
- Isso está calcado, em grande parte, na crença de que o escândalo envolvendo as fraudes, assim como as revelações que estão por vir, dificilmente atingirão o coração do governo.
- Há um entendimento geral de que quem mais tem a perder com o avanço das investigações da PF é o centrão.
- Também existe um grande potencial de danos para o Supremo, em especial os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o que anima mais o bolsonarismo do que o petismo no atual contexto.
- Enquanto o bolsonarismo puxa a narrativa para a “corrupção corrente nos governos do PT”, aliados de Lula dentro e fora do governo tentarão reforçar a associação entre o mercado financeiro e o crime.
- E reforçar a tese do governo de que há uma luta do “andar de cima contra o andar de baixo”.
Líderes centrão, por sua vez, têm adotado a estratégia de submergir do debate público, tentando esvaziar o assunto Master enquanto buscam uma forma de enterrá-lo de vez.
- A eventual participação do centrão no esquema de fraude do Master, contudo, tem um custo político.
- PT e PL brigam hoje pelo apoio de partidos desse bloco não monolítico.
- O cálculo do quanto é possível expor aliados e pleitear seu apoio precisará ser feito dia a dia, dependendo do avançar das investigações.
2. ‘Vigarice não distingue ideologia’

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado instalou nesta quarta (4) a subcomissão para acompanhar as investigações do caso Master, Daniel Marques Vieira e Maria Eduarda Portela informam no JOTA PRO Poder
- “As digitais de Daniel Vorcaro, entre outros, estão em todos os poderes, em vários escalões, em várias gestões”, disse o senador Renan Calheiros, presidente do colegiado.
- “Por isso, é desaconselhável, eu queria repetir o que disse ontem aqui, tentar politizar a investigação. A vigarice não distingue ideologia. A delinquência não tem preferência político partidária.”
À tarde, em conversa com os senadores, Gabriel Galípolo cobrou a aprovação de propostas regulatórias defendidas pelo Banco Central.
- O presidente da autoridade monetária relatou falta de pessoal e cobrou a aprovação da autonomia financeira da entidade (PEC 65/2023), travada na CCJ do Senado desde 2023.
- Ele pediu também a aprovação do PL de Resolução Bancária (PLP 281/2019), que tramita na Câmara.
Sim, mas… Renan indicou que o foco deverá ser na responsabilização dos culpados.
⏩ Pela frente: Renan anunciou que a comissão requisitou a Galípolo o envio de todas as informações das investigações sobre o Master.
- Segundo o senador, há a possibilidade de quebra de sigilo de informações, o que poderia ser feito mediante autorização do Plenário do Senado.
- Os senadores também solicitaram ao BC a designação de um assessor técnico para ajudar nas investigações.
3. Recados nada velados

Alexandre de Moraes rebateu críticas durante seu voto em julgamento sobre regras para limitar o uso de redes por magistrados, Flávia Maia relata no JOTA.
- Ao defender as vedações impostas à magistratura, ele aproveitou para, indiretamente, reagir a questionamentos sobre o contrato milionário do escritório da esposa, Viviane Barci, com o Banco Master.
- Moraes também deu indiretas sobre itens que devem ser discutidos no Código de Ética proposto pelo ministro Edson Fachin, como palestras de ministros para entidades privadas.
- O ministro defendeu que existem os mecanismos de suspeição e impedimento e que é “mentira” que o STF autorizou ministros a julgar casos em que familiares sejam partes ou advogados.
Dias Toffoli aproveitou o julgamento para defender que magistrados podem ter participação em empresas, desde que não sejam administradores.
- “Vários magistrados são fazendeiros, donos de empresas. E eles, não excedendo a administração, têm todo o direito aos seus dividendos”, disse.
Após as manifestações, o presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, cancelou um almoço em que os ministros iriam tratar do código de conduta, segundo a Folha de S.Paulo (com paywall).
4. Faltam oito meses

A pesquisa Meio/Ideia de fevereiro de 2026 desenha um primeiro turno já estruturalmente competitivo, ainda que com vantagem clara para Lula, Daniel Marcelino analisa no JOTA PRO Poder.
- Ao oscilar entre 45,6% e 48,2% dos votos válidos — 38,5% e 40% dos votos totais —, o presidente se mantém na faixa crítica que separa uma vitória antecipada da necessidade de segundo turno.
- Para efeito de comparação, na mesma pesquisa realizada em fevereiro de 2022, o então ex-presidente Jair Bolsonaro aparecia com 27% das intenções de voto.
Do outro lado, a oposição aparece menos fragmentada do que em pesquisas anteriores.
- Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, juntos, alcançam até 42,1% dos votos válidos no primeiro turno (35,3% em votos totais), o que indica um teto competitivo relevante contra Lula.
- Essa concentração sugere que o risco de segundo turno não decorre da pulverização de candidaturas, mas da capacidade do campo adversário de reter e coordenar preferências em torno de poucos nomes competitivos.
Gilberto Kassab viu nesse cenário uma chance de posicionar o PSD como alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo.
- Na prática, porém, Ratinho Jr., Ronaldo Caiado e Eduardo Leite ainda não conseguem transformar esse espaço potencial em atração efetiva do eleitor antipetista, que permanece majoritariamente alinhado a candidaturas já consolidadas.
- Sem mudanças relevantes, o centro segue como coadjuvante, mais uma variável estratégica do sistema do que um polo real de disputa.
5. 🗣️ O que estão dizendo: Pedro Lucas, União-MA

O líder do União Brasil na Câmara prevê que a disputa eleitoral passará “por temas centrais para o futuro do país”.
- “A segurança pública é urgente, porque impacta diretamente a vida das famílias e a liberdade de ir e vir”, ele diz.
- “Também precisamos falar de desenvolvimento econômico, geração de emprego, educação e redução das desigualdades regionais.”
6. Freio

Hugo Motta demonstrou contrariedade com a inclusão, no relatório do PLP 152/25, de valores mínimos a serem pagos por corrida a entregadores de aplicativo, Edoardo Ghirotto e Karol Bandeira informam no JOTA PRO Poder.
- O presidente da Câmara disse, em reunião nesta quarta (4), que especificar a remuneração na lei pode ser considerado inconstitucional — além de torná-la inócua, por obrigar o Congresso a promover revisões constantes.
- A tendência é que o relator, Augusto Coutinho (Republicanos-PE), retire o trecho antes da votação.
Por que importa: O posicionamento de Motta abre divergência com o governo, já que o ministro Guilherme Boulos defende uma remuneração mínima de R$ 10 — o texto atual de Coutinho estabelece o valor de R$ 8,50.
- Boulos deve lançar, na próxima semana, o relatório do grupo de trabalho que recebeu entregadores no Planalto para discutir essa e outras propostas para o PLP 152/2025.
⏩ Pela frente: Motta disse que quer votar o PLP no plenário até o fim de março.
- Ele citou que o STF conduz julgamentos sobre o assunto e que o Congresso perderá a prerrogativa de legislar sobre a regulamentação se não for dado um encaminhamento à proposição.
7. Antes de partir

O valor destinado ao pagamento de precatórios da União para 2026 é 6,84% menor do que o registrado no ano anterior, Lucas Mendes escreve no JOTA PRO Poder.
- Foram reservados R$ 69,67 bilhões para serem pagos neste ano, segundo dados da Advocacia-Geral da União.
- Em 2025, o montante foi de R$ 70,22 bilhões.
💸 Panorama: O volume de precatórios teve crescimento real (acima da inflação) de 240,41% entre 2015 e 2025, segundo a AGU.
- O valor para quitação em 2026 se origina de 164 mil expedições de precatórios contra a União.
- A maior parte (97,7%) dos precatórios inscritos é de valores até R$ 1 milhão.
- Quatro têm valores maiores do que R$ 1 bilhão.
- A última queda no valor total pago por ano em precatórios havia sido em 2023.
Os dados são resultado de uma estratégia de atuação “que prioriza o diálogo e a resolução inteligente de disputas”, diz a AGU.
- Segundo o órgão, a atuação envolve reconhecer o montante devido de forma antecipada, evitando que a demanda se arraste na Justiça nos casos em que exista um cenário “sabidamente desfavorável”.
- Entre 2023 e 2025, foram homologados mais de 1,77 milhão de acordos, um aumento de 171% em relação ao triênio anterior.
8. Investigações

Nunes Marques foi sorteado relator da investigação contra o ministro do STJ Marco Buzzi, acusado de importunação sexual contra uma jovem de 18 anos, Flávia Maia registra no JOTA.
- A investigação foi aberta no Supremo, ontem (4), por causa do foro privilegiado por prerrogativa de função de Buzzi.
Buzzi também vai enfrentar uma sindicância interna no STJ.
- Os ministros responsáveis pela apuração serão Raul Araújo, Isabel Gallotti e Antônio Carlos Ferreira.
- A decisão de abrir uma investigação foi tomada pelo pleno do STJ, por unanimidade de votos, em sessão extraordinária, convocada no mesmo dia que a imprensa noticiou o fato.
As investigações tramitam em sigilo por se tratar da apuração de um crime sexual.
- O caso foi revelado pelo site da revista Veja (sem paywall), na manhã de ontem (4).
- A jovem relata ter sido vítima de importunação sexual durante um passeio em uma praia de Balneário Camboriú, em Santa Catarina.
- A família da vítima estava hospedada na casa de praia do ministro.
O ministro nega as acusações.
- Em nota, ele diz que “foi surpreendido com o teor das insinuações divulgadas por um site” e que as informações “não correspondem aos fatos”.