A adoção de práticas ESG (ambiental, social e governança) provocou mudanças estratégicas no modo como as empresas operam seus negócios, trazendo ganhos em eficiência, redução de custos e interação com seus stakeholders.
Nessa etapa evolutiva, a governança de dados ESG exige repensar a estrutura corporativa e acrescenta novos elementos positivos ao transformar intenções em decisões verificáveis, ao organizar, validar e tornar auditáveis os dados que sustentam metas ambientais, sociais e de governança, elevando o nível de transparência, de conformidade regulatória e de confiança corporativa. Organizações que estruturam a governança de dados ESG, com suporte de tecnologias de IA, conseguem relatar com precisão, reduzir riscos e acessar capital em condições mais favoráveis.
A governança de dados ESG agrega uma camada evolutiva na conformidade dos relatórios ESG por ser uma trilha pela qual as empresas podem garantir que seus negócios sejam efetivamente sustentáveis, reunindo dados dispersos – sejam ambientais, sociais, financeiros ou de governança – para geri-los conforme uma arquitetura integrada e automatizada de gestão, que assegura a qualidade e consistência desses mesmos dados, gerando valor.
O propósito dos dados corporativos é fornecer à gestão e às partes interessadas informações confiáveis que orientem suas decisões e ações voltadas a maximizar os benefícios para a empresa e seus stakeholders, além de cumprir requisitos regulatórios. Esses dados formam a base indispensável para a gestão de metas e objetivos fundamentais ao negócio, devendo possibilitar insights futuros e crescimento sustentável.
A governança de dados ESG configura um conceito em construção para o qual a Fundação Dom Cabral já havia chamado a atenção: “Se o ESG colocou luz sobre os aspectos ambientais e sociais, não se deve deixar de reconhecer o papel fundamental exercido pela governança no cenário corporativo. As empresas que adotarem práticas superiores de governança e as divulgarem de maneira adequada estarão aptas a impulsionar sua reputação, alcançar maior valor de sua marca, mas, igualmente, estarem prontas a acessar linhas especiais de financiamento, reduzindo, por fim, seu custo de capital”.
Mesmo o Fórum Econômico Mundial reforça a importância da governança de dados, uma vez que iniciativas ESG somente se sustentam quando ancoradas em fundamentos econômicos sólidos, evidenciando que governança não é um custo normativo ou retórico, mas um fator estrutural de geração de valor, mitigação de riscos e preservação da competitividade no longo prazo.
Em contraposição, a falta de governança ESG gera retrabalho e desperdício, como é o caso de dados corporativos que não são aproveitados, aumentando custos de armazenamento e tempo gasto por equipes que necessitam localizar informações na hora dos reportes obrigatórios. Dados coletados automaticamente e bem governados superam o desperdício de tempo, aceleram relatórios e liberam equipes para análises estratégicas.
Cabe à governança de dados ESG definir os padrões de qualidade, que devem passar por precisão, completude, consistência. Nesse processo, registrar a linhagem dos dados é fundamental, ou seja, quem coletou, quando e como foram transformados. Isso torna os indicadores ESG auditáveis e defensáveis em auditorias internas e externas, transformando estimativas em evidências verificáveis.
Em todo o mundo, da União Europeia à Coreia do Sul, a integração de proteção de dados ESG é cada vez mais exigida. Com a evolução de normas de sustentabilidade da CSRD (Diretiva de Relatório de Sustentabilidade Corporativa da União Europeia) e do ISSB (Conselho Internacional de Padrões de Sustentabilidade), as empresas devem apresentar com fidelidades os riscos e oportunidades sociais e ambientais em suas operações e produtos.
Nesse sentido, empresas que investem em catálogo de dados, linhagem e automação atualmente, reduzem custos de conformidade amanhã. No caso brasileiro, leis como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) elevam a necessidade de controles sobre dados pessoais dentro do escopo ESG, exigindo que empresas tratem privacidade e sustentabilidade de forma coordenada para evitar sanções e danos reputacionais. Nesse prisma, a governança de dados ESG reduz riscos de multas e possíveis litígios relacionados a tratamento indevido de dados.
Sem o emprego de uma governança eficiente, os relatórios ESG podem ser estruturados com dados inconsistentes, propiciando acusações de greenwashing (divulgar informações enganosas ou exageradas sobre as práticas sustentáveis da empresa) e minar a confiança dos stakeholders, resultando em impacto negativo para a reputação corporativa, além de gerar sanções legais. O greenwashing, na verdade, tem inúmeras nuances e vem resistindo, a despeito dos esforços das agências reguladoras contra seu incremento.
No Brasil, o levantamento da Market Analysis Brasil e Instituto Akatu “Greenwashing no Brasil 2024” apurou que 85% das alegações ambientais realizadas eram “superficiais, falsas ou enganosas” em 2.000 produtos analisados. Uma governança de dados ESG permite evitar este tipo de risco com dados verificáveis, linguagem de comunicação precisa e promoção de uma cultura contínua de responsabilidade e transparência.
Com a adoção de padrões e boa gestão de dados, as empresas conseguem demonstrar evidências robustas para métricas como emissões, consumo energético e diversidade e inclusão, alinhando-se às exigências internacionais e atraindo novos investimentos.
A governança ESG ainda permite cruzar métricas operacionais, financeiras e de sustentabilidade, possibilitando análises de impacto econômico das ações sustentáveis (por exemplo, custo por tonelada de CO₂ evitada). Essa integração transforma ESG em insumo para decisões de investimento, precificação e planejamento estratégico.
Viabilizar a governança de dados ESG implica em três passos fundamentais – adotar métricas consistentes (emissões, compensações de carbono, certificações de parceiros, diversidade e inclusão); rastreabilidade de cada informação, accountability para que os dados sejam verificáveis, com histórico e documentação.
A governança de dados ESG é uma tendência em expansão, tanto que a consultoria global Wavestone, especialista em transformação digital no mundo, cita o exemplo francês: a “governança de dados ESG está se consolidando, especialmente na França, onde 52% das organizações já possuem estruturas de governança dedicadas. A colaboração entre os departamentos de RSC e Digital está se tornando crucial para definir o plano diretor de TI para ESG e garantir o controle confiável dos dados”.
O uso do aprendizado da máquina e tecnologias de IA terão papel cada vez mais centrais na automação dos dados ESG e oportunidades transformadoras que podem gerar para as empresas. O uso dos sistemas tecnológicos no desempenho da governança de dados ESG orienta para a precisão e a capacidade de análise, metas que as corporações buscam incessantemente.
No entanto, antes é necessário que os dados decorrentes de fontes diversas dos pilares ambientais e sociais sejam limpos e estruturados para identificarem padrões e anomalias e sejam capazes de revelar dados mais precisos e relevantes para gerar relatórios de sustentabilidade confiáveis e até sugerir insights com recursos da análise preditiva, tendo sempre supervisão humana.
No polo oposto, quando não há governança de dados ESG, isso pode gerar falha de due diligence e do monitoramento da cadeia de suprimentos, inclusive com uso de mão de obra similar à escravidão e até infantil por parte de fornecedores. Em 2025, o Brasil bateu o recorde de denúncias (4.550) de prática de trabalho escravo e o IBGE contabilizou 1,65 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil em 2024.
Quem considera esses riscos pouco prováveis, desconhece a revelação de uma gigante da perfumaria mundial que encontrou casos de trabalho infantil em sua cadeia de suprimentos e precisou reparar com urgência e reafirmar seu compromisso com os direitos humanos. Há nestes casos falhas de governança de dados ESG em promover rastreabilidade, auditoria de condições trabalhistas e de mitigação de riscos sociais na cadeia de fornecimento.
Ao adotar a governança de dados ESG, suas métricas e controles, a empresa se torna menos vulnerável a crises, multas, escândalos corporativos e interrupções operacionais, além de experimentar menor volatilidade de mercado e maior resiliência em momentos de incerteza. Sem dúvida, a governança não elimina riscos, mas cria capacidade interna para compreendê-los e administrá-los estrategicamente.