Goiânia e o biometano: o laboratório que o Brasil precisava

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O debate sobre a transição energética no transporte público brasileiro não deve ficar restrito à retórica de que só existe um caminho possível, a eletrificação. Esse pensamento, tecnicamente equivocado, pode gerar consequências práticas diretas sobre a qualidade do ar, o ritmo da renovação de frota e o desenvolvimento industrial do país. Goiânia está oferecendo implementando uma visão holística sobre o tema, oferecendo um exemplo prático da combinação entre política ambiental, industrial e social.

A Rede Metropolitana de Transporte Coletivo da Grande Goiânia, a Nova RMTC, vem construindo uma renovação de frota baseada em múltiplas tecnologias. Ônibus elétricos nos corredores de maior demanda, como o Eixo Anhanguera e o Norte-Sul, e ônibus a biometano e GNV como vetor central da renovação mais ampla. A Deliberação CDTC 14/2025 autorizou 501 veículos a biometano e GNV, com entregas escalonadas até o final de 2027. Em março deste ano, chegaram as primeiras unidades que foram integrados à frota elétrica existente. No total, a previsão é de uma frota renovada de 1.590 veículos novos até o início de 2027.

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O que chama atenção nesse modelo é a coerência entre a escolha tecnológica e a realidade do Estado. Goiás tem vocação agroindustrial consolidada e enorme potencial de produção de biogás e biometano a partir de resíduos agrícolas e da cadeia do agronegócio. A Lei 20.710/2020 instituiu a política estadual do biogás e do biometano, e a Lei 23.168/2024 criou mecanismos de crédito de ICMS para produtores e distribuidores.

Em 2025, o Decreto Estadual 10.712 regulamentou benefício fiscal de até 90% para produtores e distribuidores do setor. O Bioposto Leste, estrutura de abastecimento instalada na região do Terminal Novo Mundo, é o ponto de partida de uma cadeia produtiva regional que precisa de demanda cativa para se viabilizar, e o transporte coletivo está cumprindo exatamente esse papel.

Um desafio recorrente ao biometano como combustível para frotas urbanas é a prontidão da cadeia de abastecimento. Não há escala sem demanda garantida, e não há demanda garantida sem política pública consistente. O que Goiás está fazendo é criar as duas coisas ao mesmo tempo, com regulação estadual de incentivo à produção e demanda cativa via transporte coletivo. Uma articulação entre mobilidade urbana, política pública e desenvolvimento regional.

Do ponto de vista técnico, a estratégia também é sólida. Ônibus a biometano com tecnologia Euro VI reduzem as emissões de material particulado e de gases de efeito estufa em relação a veículos antigos movidos a diesel. A renovação de frota por essa via representa ganho ambiental real e imediato, sem depender da expansão de infraestrutura elétrica de recarga, que em muitas cidades ainda enfrenta desafios para atingir a capilaridade necessária.

A descarbonização da mobilidade no Brasil deve ser implementada de forma efetiva, acessível, utilizando-se de todas as tecnologias disponíveis, em escala compatível com o ritmo real de renovação da frota. O biometano cumpre esse critério, especialmente em regiões com potencial produtivo local O Brasil tem dimensões com realidades regionais bem distintas.

Uma política de transição que funcione adequadamente em uma capital com infraestrutura de rede elétrica e de recarga de baterias, pode não ser replicável em outras cidades. A pergunta é qual tecnologia está disponível, de forma viável financeiramente, compatível com a infraestrutura existente na região e capaz de reduzir emissões a curto prazo, ao mesmo tempo mantendo o ritmo de substituição de ônibus antigos com elevada emissão de poluentes.

Goiânia responde a essa pergunta com pragmatismo. Uma estratégia eclética: ônibus elétrico onde faz sentido, biometano com clara abrangência promovendo a agroindústria local e assegurando a renovação contínua da frota como prioridade em qualquer cenário.

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O modelo goiano também contribui para o fortalecimento da indústria nacional. A cadeia de fornecedores de veículos a gás e biometano tem alto conteúdo nacional, com competência técnica para preservar e expandir essa rota tecnológica significa manter empregos qualificados, desenvolver fornecedores locais e fortalecer a competitividade da indústria brasileira de veículos comerciais

A infraestrutura de abastecimento do biometano é menos exigente que o upgrade de subestações e redes elétricas em alta tensão. Isso torna o ônibus a biometano acessível para cidades que precisam renovar a frota agora, com os recursos que têm disponíveis hoje.