A sequência formada pela liquidação do Banco Master e, logo depois, do Will Bank impõe uma reflexão que vai além do exame jurídico de cada caso isoladamente. Trata-se de um episódio que testa, simultaneamente, a solidez financeira e a credibilidade institucional do principal mecanismo de contenção de crises do sistema bancário brasileiro: o Fundo Garantidor de Créditos. O risco que se desenha não é o colapso imediato do Fundo, mas algo mais sutil e, por isso mesmo, mais perigoso, qual seja, a formação de uma crise autorrealizável de liquidez induzida por perda de confiança.
Os números são o ponto de partida incontornável. As estimativas mais aceitas no mercado indicam que a liquidação do Banco Master deve gerar um desembolso do FGC em torno de R$ 40 bilhões. A liquidação do Will Bank acrescenta aproximadamente R$ 6,3 bilhões. O impacto agregado, portanto, aproxima-se de R$ 46 bilhões em um intervalo de tempo curto. Antes desses eventos, o patrimônio total do FGC situava-se na faixa de R$ 150 a R$ 160 bilhões, com liquidez disponível estimada entre R$ 120 e R$ 125 bilhões. Em termos práticos, isso significa que algo entre 30% do patrimônio total e mais de um terço da liquidez imediata do Fundo foi consumido por dois eventos consecutivos.
Do ponto de vista estritamente contábil, o FGC permanece solvente. Esse ponto precisa ser afirmado com clareza para evitar leituras apressadas. O problema não é insolvência, mas estresse. Em sistemas financeiros, a diferença entre solvência e liquidez percebida é decisiva. Um fundo garantidor pode ser perfeitamente solvente e, ainda assim, sofrer uma crise de confiança se o mercado passar a duvidar da sua capacidade de absorver eventos sucessivos com previsibilidade temporal.
É aqui que a lógica econômica se impõe. O FGC foi concebido para romper o incentivo à corrida bancária. Ao garantir depósitos até determinado limite, o Fundo substitui a confiança no banco individual pela confiança no sistema. Enquanto essa substituição é aceita pelo mercado, o investidor não corre, mesmo diante de notícias negativas sobre uma instituição específica. O problema surge quando a confiança deixa de ser binária, paga ou não paga, e passa a ser temporal. A pergunta muda. Não é mais “o FGC garante?”, mas “ até quando o FGC garante?” e “e se houver outro evento antes?”.
Esse deslocamento é o gatilho clássico do flight to safety. Em teoria econômica, o termo descreve o movimento de migração de recursos de ativos percebidos como mais arriscados para ativos considerados mais seguros em contextos de incerteza. No sistema bancário, isso se traduz em resgates de CDBs, LCIs e outros instrumentos emitidos por bancos pequenos e médios, com redirecionamento para grandes bancos ou títulos soberanos. O comportamento é racional do ponto de vista individual, mas potencialmente destrutivo do ponto de vista coletivo.
A teoria bancária explica por quê. Bancos operam por transformação de prazos. Captam recursos de curto prazo e emprestam a prazos mais longos. Mesmo instituições solventes podem se tornar inviáveis se enfrentarem retiradas simultâneas de funding. A crise deixa de ser de solvência e passa a ser de liquidez. O banco quebra não porque seus ativos não existam, mas porque eles não podem ser realizados no tempo exigido pelo passivo. É a lógica clássica das corridas bancárias, estudada há décadas e reiteradamente confirmada pela história.
O papel de um fundo garantidor é impedir que essa dinâmica se inicie. O paradoxo é que, quando eventos de grande porte se acumulam em sequência, o próprio fundo passa a ser observado como variável de risco. Não porque falhe, mas porque deixa de ser percebido como recurso distante e inesgotável. O debate público sobre recomposição de reservas, alongamento de prazos e ajustes de incentivos, ainda que tecnicamente legítimo, pode contribuir para essa mudança de percepção se não for bem ancorado institucionalmente.
A experiência internacional oferece lições úteis. Nos Estados Unidos, o sistema equivalente ao FGC é o FDIC, responsável por garantir depósitos bancários. Durante a crise de 2008, e novamente em episódios mais recentes envolvendo bancos regionais, a simples dúvida sobre a suficiência e a velocidade da cobertura foi suficiente para provocar corridas localizadas. A resposta americana foi rápida e pragmática, isto é, ampliação temporária das garantias, comunicação clara e ação coordenada. O objetivo não foi apenas financeiro, mas psicológico. Ancorar expectativas era tão importante quanto injetar recursos.
Na Europa, onde os fundos garantidores são nacionais e menos homogêneos, crises bancárias mostraram como depósitos migram rapidamente entre países percebidos como mais seguros, agravando assimetrias e exigindo intervenções emergenciais. Em todos esses casos, o contágio não decorreu apenas de fragilidade objetiva, mas da percepção de que o sistema poderia não responder com rapidez suficiente.
No Brasil, o risco assume contornos próprios. O sistema bancário é concentrado, o que reduz a probabilidade de colapso generalizado. Ainda assim, bancos médios e pequenos dependem fortemente de funding garantido pelo FGC. Se o flight to safety se intensificar, essas instituições podem enfrentar dificuldades não por problemas próprios, mas por retração abrupta de recursos. A crise torna-se autorrealizável, ou seja, o medo da quebra provoca justamente o comportamento que leva à quebra.
A liquidação do Will Bank reforça esse risco por um motivo adicional. Ela sinaliza que o caso Master não foi um evento pontual, mas um problema de conglomerado, com efeitos em cascata. Para o mercado, a mensagem implícita é a de que outros episódios podem surgir, ainda que isso não venha a se confirmar. Em finanças, a expectativa, muitas vezes, é suficiente para alterar comportamentos.
O maior desafio institucional, portanto, não é apenas recompor números. É gerir confiança. O FGC continua sendo um pilar essencial da estabilidade financeira brasileira, mas sua eficácia depende de previsibilidade, clareza e tempo de resposta. Discussões sobre sustentabilidade do Fundo são necessárias e inevitáveis após um choque dessa magnitude. O risco está em permitir que essas discussões sejam interpretadas como sinal de fragilidade imediata.
Crises financeiras raramente começam com um colapso súbito. Elas se formam quando decisões individuais perfeitamente racionais passam a produzir um resultado coletivo indesejado. O flight to safety é o sintoma clássico desse processo. A sequência Master–Will não é apenas uma história de liquidações. É um teste de maturidade institucional sobre como preservar a confiança em um sistema que depende, acima de tudo, de expectativas.
Em resumo, se esse movimento de flight to safety se consolidar, o efeito sistêmico mais provável não é apenas uma sequência de eventos de liquidez pontuais, mas um processo de seleção adversa no sistema bancário. Bancos pequenos e médios, que dependem de funding pulverizado e sensível à percepção de risco, tornam-se estruturalmente mais vulneráveis. Mesmo instituições bem geridas, com ativos de qualidade e índices prudenciais adequados, podem sucumbir simplesmente por perda simultânea de captação. O colapso, nesses casos, não decorre de má gestão, mas de reprecificação abrupta da confiança.
O resultado agregado desse processo é uma concentração bancária ainda maior. À medida que investidores migram para grandes bancos e para títulos soberanos, o sistema passa a favorecer instituições percebidas como “grandes demais para falhar”, reforçando uma dinâmica que já caracteriza o mercado brasileiro. Bancos médios e pequenos perdem competitividade, acesso a funding e capacidade de crescimento, enquanto os grandes consolidam participação de mercado não por eficiência adicional, mas por vantagem reputacional em um ambiente de estresse.
Esse efeito é particularmente sensível no Brasil, onde o sistema bancário já é altamente concentrado em comparação internacional. Uma crise autorrealizável de liquidez, se não contida, tende a acelerar esse traço estrutural. O paradoxo é evidente: o mecanismo criado para proteger a diversidade do sistema e evitar corridas bancárias pode, sob estresse prolongado, contribuir indiretamente para a homogeneização do mercado, reduzindo competição e aumentando o poder sistêmico de poucos conglomerados.
Há, ainda, uma consequência de médio prazo frequentemente negligenciada. Com menos bancos médios e pequenos operando de forma viável, o crédito tende a ficar mais caro e mais seletivo, especialmente para segmentos menos atendidos pelos grandes bancos. O impacto não se limita ao sistema financeiro, mas se propaga para a economia real, afetando pequenas e médias empresas, consumidores e regiões mais dependentes de instituições locais ou especializadas.
Por isso, o desafio colocado pelo pós-Master não é apenas absorver perdas passadas, mas evitar que a resposta do mercado produza um efeito estrutural indesejado. Preservar a confiança no FGC, garantir previsibilidade temporal e comunicar com clareza a capacidade de resposta do sistema não são apenas medidas de estabilidade imediata. São instrumentos essenciais para impedir que uma crise de confiança se transforme em um vetor de concentração bancária ainda mais profunda.
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