Canetas emagrecedoras: Novo Nordisk propõe semaglutida no SUS com desconto de 59%

  • Categoria do post:JOTA

A Novo Nordisk apresentou à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) um pedido de inclusão da semaglutida no Sistema Único de Saúde (SUS) com redução de 59% no preço de referência. “É um dos menores preços do mundo”, afirmou ao JOTA o vice-presidente de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da Novo Nordisk, Leonardo Bia, em entrevista concedida na sexta-feira (12/6).

Esta não é a primeira vez que a Novo Nordisk solicita à Conitec a incorporação da semaglutida. Em agosto de 2025, diante de um pedido mais amplo, a comissão negou a incorporação do tratamento, alegando alto impacto orçamentário.

A proposta atual, apresentada em maio, é mais restrita: prevê a indicação do medicamento para pacientes com mais de 45 anos, sem diagnóstico de diabetes, com obesidade grave e histórico de infarto.

A definição do grupo apoiou-se em um estudo feito em 41 países e com 17,6 mil adultos. Pelos cálculos da farmacêutica, o modelo tem alcance para tratar entre 27 mil a 30 mil pessoas, anualmente.

Ainda de acordo com a Novo Nordisk, o estudo indicou uma redução de 20% no risco de morte cardiovascular, infarto e acidente vascular cerebral em adultos jovens, sem diabetes e que já sofreram infarto. “Nosso objetivo é oferecer um caminho que seja clinicamente relevante e financeiramente viável para o SUS”, disse o vice-presidente.

Conversas prévias

Ao JOTA, Bia informou que, antes da apresentação do pedido à Conitec, a companhia teve conversas prévias com o Ministério da Saúde para auxiliar no desenho da proposta.

A patente da semaglutida expirou em março. Com o fim do direito ao monopólio, outras empresas passaram a poder produzir o medicamento, um dos primeiros a ser chamado de “caneta emagrecedora”.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recebe pedidos de registro de genéricos desde o ano passado. Até março, 17 haviam sido apresentados, sendo que alguns foram negados por não cumprir requisitos técnicos.

Em maio, a Anvisa aprovou o registro do primeiro concorrente da semaglutida produzida pela Novo Nordisk, Ozempic (registrado para o controle da diabetes) e Wegovy (registrado para o controle da obesidade). Trata-se do Ozivy, registrado como similar, produzido pela EMS.

Mercado em transformação

Diante desse quadro, o mercado já aguardava que a Novo Nordisk apresentasse um novo pedido de incorporação do medicamento, com alto desconto. Para a empresa, a aprovação do uso do remédio no SUS representa a possibilidade de garantia de uma fatia do mercado, que agora tende a se pulverizar com a entrada de genéricos e pela ampliação do uso da tirzepatida – seja do medicamento patenteado, seja por fórmulas magistrais.

A Conitec submeteu o pedido à análise pública na semana passada. Para o vice-presidente, a agilidade na avaliação é um bom indicativo. “Ter aberto essa primeira etapa para contribuição nos deixa bastante otimistas”, afirmou.

O processo cumpre o rito de prazo da Conitec. O tempo de avaliação é de até 180 dias. Caso a incorporação seja aprovada, a compra do medicamento deverá ser feita mediante licitação. Bia avalia que, atualmente, as empresas Novo Nordisk e Eurofarma (que tem acordo com distribuição com a Novo Nordisk) são as únicas em condições para participar de uma eventual licitação.

O vice-presidente afirmou não haver, neste momento, discussões sobre transferência de tecnologia para produção da semaglutida. “Estamos sempre abertos não só a expandir o que a gente já faz aqui, mas a conversar nessas parcerias com o ministério.”

Questão de tempo

A percepção é a de que a chegada de canetas emagrecedoras no SUS é uma questão de tempo. Ano passado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, solicitou maior rapidez para a análise de pedidos de registros de análogos de GLP-1. Além da semaglutida (registrados no Brasil como Wegovy e Ozempic), essa classe de medicamento inclui a tirzepatida (Mounjaro, protegido sob patente) e a liraglutida (conhecida comercialmente pelos nomes de Saxenda e Victoza).

A popularização desses tratamentos pode ter um efeito que vai além da saúde: a incorporação no SUS tem potencial de se converter em um ganho de imagem, um ativo importante sobretudo no período que precede uma disputa eleitoral.

No Ministério da Saúde, a argumentação é a de que este tipo de tratamento deve ser usado de forma controlada, como mais uma ferramenta para tratamento da obesidade. Havia, por exemplo, a percepção de que o tratamento com os análogos de GLP-1 deveria ser estudado para pacientes com obesidade severa grave que, em virtude da sua condição, não podem ser submetidos à cirurgia bariátrica.