Brasil protege formação de médicos e advogados; por que não a dos professores?

  • Categoria do post:JOTA

Quando o Estado brasileiro regulamentou a oferta de cursos de graduação a distância, estabeleceu uma regra clara para Medicina, Enfermagem, Psicologia, Odontologia e Direito: a formação deve ocorrer integralmente de forma presencial, sem exceção. O entendimento é simples: essas carreiras exigem prática, supervisão e interação constante com pessoas reais. Mas, quando o assunto é a formação dos professores, não seguimos a mesma lógica.

Justamente para a profissão responsável por formar médicos, advogados, enfermeiros e todos os demais profissionais do país, ainda se admite uma carga significativa de atividades a distância sem mediação de um professor em tempo real. Essa assimetria foi reafirmada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que atualizou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores. Perdemos uma janela de oportunidade.

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas

O texto aprovado traz avanços importantes, como a antecipação do estágio supervisionado para o terceiro semestre da licenciatura e a exigência de, no mínimo, 50% de atividades presenciais nos cursos semipresenciais. Ao mesmo tempo, consolida uma flexibilização que reduz a presença de formadores ao longo do curso. E isso merece voltar ao debate.

Os 20% de atividades síncronas mediadas por professores, previstos na proposta original, passaram a ser obrigatórios apenas para cursos com notas 1 e 2 no Enade (numa escala até 5). Trata-se de cursos com desempenho muito baixo ou insatisfatório, sujeitos a sanções do MEC, como a suspensão do ingresso de novos alunos. Graduações com nota 3, patamar mínimo considerado satisfatório, ficaram dispensados dessa exigência.

Se o Brasil entende que não se forma um médico ou um advogado pela tela de um
computador, por que, para um professor, isso é aceitável?

Outra mudança urgente é superar a ideia de que o curso de Pedagogia, sozinho, pode formar com a mesma profundidade professores de creche e educação infantil, alfabetizadores e, ao mesmo tempo, coordenadores pedagógicos e diretores escolares. São funções de naturezas distintas e níveis de complexidade próprios, hoje reunidas em uma formação excessivamente generalista, o que tende a comprometer o aprofundamento necessário na alfabetização e na gestão escolar.

Há caminhos para enfrentar esse problema, como a criação de trajetórias mais específicas de formação, com licenciaturas voltadas para a educação infantil, a alfabetização e a gestão
escolar. Outra possibilidade é manter uma base comum na formação inicial, mas reforçar a especialização obrigatória ao longo da carreira, sobretudo para coordenação pedagógica e direção, que exigem competências próprias de liderança e gestão.

Qualquer solução, no entanto, precisa partir de um entendimento: ensinar é uma prática, não apenas transmissão de conteúdo. Conduzir uma roda de crianças na educação infantil, lidar com ritmos distintos em uma turma do ensino fundamental, sustentar a atenção de adolescentes no ensino médio ou perceber o silêncio de um aluno que não entendeu e não vai perguntar não se aprende apenas em teoria ou por vídeo – exige formação consistente e experiência orientada.
Aprende-se com profissionais mais experientes orientando e corrigindo a prática.

O estágio é para o professor o que o internato é para o médico. Não é acessório da formação. É a própria formação. Há quem peça cautela. O argumento do setor privado é que a presencialidade já subiu de cerca de 10% para 50% e que seria precipitado aumentar a dose do remédio antes de observar seus efeitos. A alegoria é interessante, mas não funciona na vida real. Frente a um quadro que já grave, não se pode esperar para agir.

Os dados do Enade das Licenciaturas deixam pouco espaço para dúvidas sobre a
dimensão do desafio que enfrentamos. No mesmo exame, aplicado aos mesmos
concluintes e sob os mesmos critérios de avaliação, 73,9% dos estudantes de cursos presenciais foram considerados proficientes. Entre os concluintes da modalidade a distância, esse percentual foi de 46,9%. Trata-se de uma diferença de 27 pontos percentuais que não pode ser ignorada.

Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

O abismo não está no futuro, à espera de avaliação. Está no presente, medido e publicado. O apelo à prudência não vem de quem emprega o professor depois de formado, redes municipais e estaduais. Vem de quem o forma. Não há formação continuada que seja capaz de suprir essa lacuna e precariedade na formação inicial. Para a criança da escola pública, o resultado de uma formação insuficiente não é uma estatística futura: é o ano letivo que ela está vivendo agora, e que não volta. Sem falar no prejuízo irreparável na educação infantil.

A mesma pressão de mercado que hoje garante a flexibilização da formação dos
professores já bateu – e voltará a bater – às portas das demais profissões. A brecha aberta na casa ao lado raramente respeita o muro.