Em 27 de janeiro de 2026 é celebrada a histórica data na qual, 81 anos atrás, as tropas do Exército Vermelho liberaram o maior campo de extermínio da história: Auschwitz-Birkenau, cujo memorial encontra-se localizado na cidade polonesa de Oswiecin, situada entre 65 e 70 km da cidade de Cracóvia.
Muito embora, nos dias atuais, não falte quem, inadvertidamente, compare distintas situações de guerras e demais tragédias ao Holocausto (ou Shoah, vocábulo que significa catástrofe, destruição ou aniquilação), o massacre sistematizado de 2/3 dos judeus da Europa, incluídos do norte da África (entre 15 mil e 20 mil judeus exterminados), é importante a conscientização de que, hoje, são poucos os que realmente conhecem os processos e as dinâmicas do Holocausto, nos seus detalhes e na sua extensão.
A ignorância sobre o Holocausto se torna mais grave à medida que atinge as novas gerações e parcelas da população com menor escolaridade e renda, como demonstram as pesquisas mais recentes. Neste sentido, enquanto 86,2% dos entrevistados com pós-graduação souberam definir corretamente o Holocausto, o índice despenca para 27,2% entre aqueles com ensino médio completo.
A desigualdade se repete no recorte econômico: 42,6% das pessoas com renda de até dois salários mínimos acertaram a definição, contra 87,1% entre os entrevistados com renda superior a dez salários mínimos.
Outros dados apontam que 59,3% dos brasileiros já ouviram sobre o Holocausto, mas apenas a metade (53,2%) soube defini-lo. A situação piora quando a questão envolve os detalhamentos sobre o Holocausto, como por exemplo o conhecimento sobre o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau: apenas 38% dos entrevistados souberam identificá-lo.
É evidente que problemas estruturais da sociedade brasileira contribuem para referida ignorância sobre o Holocausto, como a baixa qualidade do sistema educacional e demais carências socioeconômicas. Entretanto, a situação traduz grave falha na formação das novas gerações e com alto risco para o regime democrático, especialmente sob a era digital na qual as mensagens de ódio, racistas, antissemitas, negacionistas e discriminatórias são propagadas de forma instantânea e sem fronteiras ou obstáculos para sua disseminação.
Eis a importância das efemérides como este dia 27 de janeiro, que remete à libertação dos poucos sobreviventes encontrados, em Auschwitz-Birkenau, pelo Exército soviético, em 1945.
A implantação de Auschwitz bem projeta como foi o processo de construção de um sistema fordista de produção da morte das minorias perseguidas pelo nazifascismo. Começou com a ocupação de velhos barracões de um quartel polonês já por seu famigerado comandante Rudolf Höess, enforcado em 1946 diante de uma das câmaras de gás do campo.
À base de improvisações e experimentações, a estrutura do campo foi crescendo, sob o trabalho escravo de prisioneiros, especialmente de soldados soviéticos e civis poloneses na fase inicial do campo; das vítimas judias e de outras origens étnicas, que trabalhavam até morrer ou por espancamentos.
Foi também por meio de experimentos com soldados do Exército vermelho que o comando de Auschwitz desenvolveu, de modo criterioso, os métodos e espaços para gaseamento de milhões de seres-humanos, judeus e outras minorias perseguidas pelo nazismo, em grandes câmaras de gás e mediante uso do gás Zyklon B, além dos fornos crematórios.
A inspiração para a sistematização do extermínio por meio de grandes câmaras de gás foi obtida do famigerado projeto T4 ou, eufemisticamente, o projeto de “eutanásia” que assassinou, segundo o United States Holocaust Memorial and Museum (USHMM), “…70.273 pessoas com deficiências mentais e físicas institucionalizadas em seis instalações de câmara de gás entre janeiro de 1940 e agosto de 1941″.
Segundo informa o Museu e Memorial de Auschwitz-Birkenau, em torno de 1,1 milhão de pessoas pereceram em Auschwitz: cerca de 1 milhão de judeus. Some-se, ainda, o extermínio de cerca de 70 mil poloneses, 21 mil ciganos (roma e sinti), 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos e cerca de 12 mil prisioneiros de outras etnias, como tchecos, bielorrussos, iugoslavos, franceses, alemães e austríacos.
Assim, 27 de janeiro é a data designada pelas Nações Unidas para que a memória das vítimas do nazismo e a lembrança da tragédia de um dos maiores e mais letais campos de extermínio da história, não seja esquecida e sirva de alerta sobre os riscos permanentes que pairam sobre os regimes democráticos.
Se a data, por si só, já deve sempre ser lembrada para que nenhuma outra tragédia semelhante jamais volte a ocorrer, atualmente ganha em relevância quando o antissemitismo volta a crescer vertiginosamente no mundo, inclusive no Brasil.
Não são poucos os exemplos: judeus de diversos países passaram a ser hostilizados e mesmo atacados como se fossem responsáveis pelas decisões do atual governante de Israel e seu gabinete, responsabilização tal que não se vê em relação a populações de diversos países cuja origem étnica remonta a outros Estados que também travam guerras nos dias de hoje, como Rússia ou Irã.
O antissemitismo cresceu 350% em apenas dois anos no Brasil, conforme pesquisa publicada em 2025; a internet, como não poderia ser diferente, tornou-se o principal veículo de propagação do ódio racista e da intolerância contra judeus e suas comunidades.
A vandalização de locais sagrados para a comunidade judaica também é constatada, como ocorreu com o cemitério judaico em Belo Horizonte. A COP30 foi marcada por ações antissemitas, quando o rabino Shlomo Zagury, do Beit Chabad de Belém, que visitava a Zona Verde, foi hostilizado por manifestantes e escoltado para fora do local. Ou seja, um rabino brasileiro não pôde permanecer no evento em razão da intolerância de um grupo, em seu próprio país.
A normalização do antissemitismo e da violência física e simbólica dele decorrentes hoje, no Brasil e no mundo, pode ser equiparada ao ambiente e práticas antissemitas implantadas paulatinamente pelo regime nazista a partir de 1933, na Alemanha. Os estereótipos e as idéias conspiracionistas imputadas aos judeus nos dias de hoje são os mesmos propagados na Europa do século 19 e por Julius Streicher et caterva, sob o Terceiro Reich.
A postura das autoridades e da sociedade brasileira deve ser ativamente antirracista e claramente voltada ao enfrentamento do antissemitismo e contra qualquer outra forma de discriminação. No mundo atual em que o sistema internacional pós-1945 vem rapidamente desaparecendo e em que regimes democráticos passam por corrosões internas, o alerta da história ganha em relevância e dramaticidade.
Afinal, nem todo discurso de ódio culmina em genocídio, mas todo genocídio começa com um discurso de ódio.