O ano de 2026 inicia-se sob o signo da guerra. A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa representam o retorno do mundo à Era dos Impérios e o marco representativo da falência da ordem política e jurídica internacional instaurada no pós-Segunda Guerra.
Independentemente de Maduro ser ou não um ditador, o sistema jurídico internacional possui regras que determinam quando um país pode atacar outro, situação esta restrita apenas aos casos de legítima defesa ou quando autorizado pelo Conselho de Segurança da ONU.
O ataque ilegal de Donald Trump mostra, portanto, não apenas a sua intenção de transformar a América Latina em sua zona de influência de caráter colonial, mas também impõe na prática a “lei do mais forte” no sistema político global, validando, segundo essa lógica, quaisquer ataques de potências mundiais a países que julguem serem da sua esfera de influência.
De forma mais aprofundada, o que está em curso no mundo é a sua “palestinização”. Gaza foi o “laboratório de guerra” que mostrou ao mundo que se Israel pode exterminar o povo palestino sem consequências reais, os EUA, que apoiam esse genocídio, e outras potências também podem fazer o que desejarem com outros países sem punições efetivas.
Ou seja, a situação de ocupação da Palestina por meio da violência, vigilância, desapropriação de terras, expropriação de recursos e deslocamento forçado de pessoas não é apenas uma experiência local, mas está se tornando uma dinâmica de poder, controle e opressão que se expande e está sendo replicada em diferentes partes do planeta.
Esta é a consolidação de um processo que o filósofo Giorgio Agamben classificou como a normalização do estado de exceção no padrão de atuação dos Estados na contemporaneidade. Em termos simples, a exceção se torna a regra, lembrando a distopia totalitária 1984, de George Orwell, na qual a guerra se torna um dispositivo contínuo e não mais um recurso de última instância.
Conforme detalha em seu livro Estado de Exceção (2003), Agamben argumenta que se trata de um processo desenhado desde a Primeira Guerra Mundial, tendo seu ápice na Alemanha nazista, e que se tornava perceptível no período histórico da publicação da sua obra com as ações tomadas pelos EUA depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Após esse evento, foram promulgadas leis, como o Patriot Act, que expandiu os poderes de vigilância das agências de segurança sobre a população americana.
Ademais, abriu-se caminho para a realização de ações externas de legalidade duvidosa ou de ilegalidade comprovada, como os ataques ao Afeganistão e ao Iraque e o aprisionamento de prisioneiros de guerra na Base de Guantánamo, considerada um “limbo jurídico” onde as garantias constitucionais dos EUA não se aplicam totalmente.
Agamben define o estado de exceção como o espaço onde a lei é suspensa e a “vida nua”, conceito que se refere à vida biológica humana despida de valor político e direitos e reduzida à pura existência física, torna-se a norma e onde os indivíduos podem ser mortos sem punição.
Para isso, o filósofo parte da análise do pensamento de Carl Schmitt, teórico jurídico do regime nazista, para quem o “soberano é aquele que decide sobre o estado de exceção”, e de estudos de uma série de legislações europeias e americanas que ao longo do tempo foram transformando a exceção em regra, criando zonas de exclusão onde a lei não se aplica e a violência estatal é legitimada. Os campos de concentração nazistas e os de refugiados em Gaza são exemplos destas “zonas de indistinção” onde o poder soberano reduz a vida à mera existência biológica sem direitos.
Diante dessa nova conjuntura mundial que se impõe, portanto, torna-se possível classificar os países do mundo em três categorias: os impérios militares e econômicos dotados de armas nucleares, ou “novos soberanos”, que ditam as regras de uso do estado de exceção nas relações internacionais (EUA, China e Rússia); as potências médias, que possuem poder militar nuclear e econômico suficientes para retaliarem as primeiras e influenciarem economicamente de forma razoável a ordem econômica global, como Índia, França, Israel, Reino Unido; e o resto do mundo que, à mercê das grandes potências, deve buscar se unir para manter sua independência ou se tornar países satélites e “protetorados” das primeiras.
Em dezembro de 2025, a Casa Branca anunciou a intenção clara de colocar a América Latina como prioridade estratégica para os EUA com a divulgação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos.
Por meio desse documento foi criada uma versão atualizada da Doutrina Monroe, elaborada em 1823 pelo presidente James Monroe, que defendia a ideia de “América para os americanos” e que serviu de justificativa para ações diplomáticas, militares e econômicas que buscavam consolidar a influência dos EUA no continente americano.
Essa nova estratégia descreve a América Latina como um “front central” na disputa geopolítica contemporânea, justificando o reposicionamento de recursos militares, diplomáticos e de inteligência americanos na região.
Antes do ataque à Venezuela, Trump já vinha colocando em prática essa nova doutrina em países como o Panamá, que teve de romper a cooperação com a China em infraestrutura, e Honduras, manifestando apoio a Nasry Asfura, candidato conservador do Partido Nacional, incentivando os eleitores hondurenhos a votarem nele e ameaçando suspender a ajuda financeira ao país caso o candidato não fosse eleito.
Já em relação à Argentina, Trump concedeu um socorro de US$ 20 bilhões ao governo do seu aliado ultraliberal Javier Milei dias antes das eleições legislativas do país, tidas como cruciais para a sobrevivência do governo e que acabaram sendo vencidas pelo partido governista.
Ainda é muito cedo para afirmar o que esperar em seguida dos EUA, mas pelas próprias falas de Trump, tudo indica que Colômbia e Cuba serão as próximas a serem atacadas. Porém, o Brasil é a verdadeira joia da coroa por possuir a maior reserva de água doce do planeta, biodiversidade, terras raras, petróleo, nióbio, agronegócio extremamente lucrativo e fronteira com quase todos os países da América do Sul. Tanto Brasil quanto Colômbia passarão por eleições neste ano que, com certeza, sofrerão alguma forma de interferência, direta ou indireta, dos EUA.
A grande pergunta que fica diante deste novo cenário que se impõe é: o que levou à criação dessa conjuntura? Como já dito em artigos anteriores, estamos vivendo o colapso global do sistema capitalista em todos os sentidos (econômico, ambiental e político). O capitalismo é o único sistema político-econômico da história da humanidade que necessita de um crescimento constante para se manter e agradar uma minoria detentora do poder econômico. Porém, vivemos em um mundo de recursos finitos e, por isso, o capitalismo acaba funcionando como um câncer que está matando seu hospedeiro.
Para manter esse crescimento constante em prol de poucos, o sistema já não consegue mais se sustentar sem a hiperexploração do meio ambiente e da mão de obra da classe trabalhadora e dos recursos naturais de países mais fracos no tabuleiro global e, por isso, precisa adotar as suas faces mais brutais, o imperialismo e o neoliberalismo, para tentar sobreviver às suas próprias contradições.
A tendência, portanto, é que não apenas este ano, mas todos os vindouros serão igualmente ou mais dramáticos até do que 2026 já está sendo. Para mudar de rumos e evitar uma catástrofe humanitária e ambiental de proporções planetárias, a humanidade precisa colocar na ordem do dia a superação do atual sistema que rege a existência na Terra com a construção de um novo modo de vida econômico, social e ambientalmente sustentável para a maioria dos povos do mundo. Sem isso, as crises econômicas, ambientais e políticas se tornarão cada vez mais intensas e contínuas e os estados de exceções se multiplicarão até tornar inviável a vida da maioria da população no planeta.