As catástrofes e as crises humanitárias costumam trazer à tona o pior e o melhor dos seres humanos. Enquanto algumas pessoas exibem suas piores facetas nesses momentos, praticando abusos e crimes, outras resgatam a verdadeira natureza humana, conduzindo ações que reforçam nossos laços de solidariedade.
Assim ocorreu na Segunda Guerra Mundial, em que o holocausto terminou por servir como antítese para a construção do sistema internacional de direitos humanos[1]. Fenômeno semelhante também se deu no começo da década de 1970 do século passado, quando a crise humanitária decorrente da guerra de independência de Bangladesh (Paquistão Oriental) mobilizou a sociedade civil de países ocidentais para a arrecadação de recursos destinados à ajuda humanitária em favor de milhões de refugiados na região.[2] A mesma mobilização testemunhamos no Brasil hoje, em razão da crise derivada das enchentes no Rio Grande do Sul.[3]
No caso da citada crise de início dos anos 1970, foi plantada a semente do movimento hoje conhecido como “altruísmo eficaz” (“effective altruism”), quando o filósofo australiano Peter Singer publicou “Famine, Affluence, and Morality”.[4] No referido artigo, Singer apresenta seu argumento sobre o dever moral (ou ético) positivo, ou seja, sobre a obrigação moral decorrente da possibilidade de uma pessoa salvar a vida ou algum bem relevante de outro ser humano, em situações nas quais não haja igual prejuízo de bem ou valor moral para a pessoa moralmente obrigada.
Em dito artigo, Singer toma o exemplo de Bangladesh por ser o tema em evidência naquele momento. Para o citado filósofo, a situação então existente na região bengali não tinha nada de “única”, “exceto por sua magnitude”, considerando que, em todo o mundo, milhões de pessoas morriam de fome ou malnutrição, em situações igualmente emergenciais.[5] Simplesmente, os fatos de então sensibilizaram o mundo todo e atraiu atenção para a possibilidade de cada pessoa fazer sua parte para salvar vidas humanas do outro lado do planalto.
Ocorre que, como argumentou Singer, o que poderia parecer um mero ato facultativo de bondade deveria ser considerado, em realidade, um dever moral, uma obrigação moral de fazer algo. Nas palavras dele, “se estiver em nosso poder evitar que algo muito ruim aconteça, sem sacrificar com isso nada moralmente significativo, devemos, moralmente, fazê-lo”.[6]
Em suma, o argumento central de Singer é o seguinte: se podemos evitar um mal (ou seja, se está em nossa esfera de possibilidade fazê-lo), é nossa obrigação moral evitá-lo, por meio de ações, a menos que, para isso, tenhamos que sofrer ou gerar um mal igual ou maior.[7]
Quatro décadas depois, Singer retoma o tema em sua obra The Life You Can Save. Nesta, o autor resume suas premissas e conclusões:[8]
Primeira premissa: o sofrimento e a morte por falta de comida, abrigo e cuidados médicos são ruins.
Segunda premissa: se está em seu poder evitar que algo ruim aconteça, sem sacrificar algo tão importante, é errado não fazê-lo.
Terceira premissa: ao doar para instituições de caridade eficazes, você pode evitar o sofrimento e a morte por falta de comida, abrigo e cuidados médicos, sem sacrificar nada tão importante.
Conclusão: portanto, se você não doar para instituições de caridade eficazes, você está fazendo algo errado.
As reflexões expostas por Singer foram uma das origens do movimento que veio a ser conhecido como “effective altruism” (altruísmo eficaz).[9] Trata-se de um movimento moral e ético que propõe não somente o dever de agir para diminuir males no mundo, mas também o esforço de encontrar as formas mais efetivas de maximizar os resultados da ação altruísta.
Assumindo, como premissas, (i) que somos responsáveis pelo que deixamos de fazer, (ii) que, hoje, é possível atuar globalmente em situações que demandam apoio, (iii) que há muitas opções para a destinação de nossas doações, e (iv) que tais alternativas resultam em diferentes impactos na preservação de vidas (e na construção de condições dignas para todos), o que propõe o movimento do altruísmo eficaz é canalizar a doação de recursos e serviços para as alternativas que impactem na preservação da maior quantidade de vidas.
Segundo Singer, também se associa ao effective altruism a opção de vida “earning to give”, ou seja, a busca por carreiras profissionais que permitam o auferimento de alta renda com o fim específico de destinar individualmente o maior volume possível de doações a instituições humanitárias que atuem eficazmente.[10]
Uma das principais inspirações para essa via é o exemplo de Bill Gates, o qual, já bilionário, abandonou os negócios para destinar seu patrimônio a ações humanitárias eficazes[11] e decidiu deixar em testamento mais de 99% de sua fortuna (avaliada em US$ 124,7 bilhões ou R$ 642 bilhões) para a fundação que realiza tais ações.[12] Vários bilionários fizeram compromissos no mesmo sentido, como George Soros[13] e Sam Altman[14].
Outra opção indicada, também dentro do espectro de propostas do altruísmo eficaz de Singer, é a escolha por posições profissionais de alta importância dentro de empresas e instituições, a fim de influenciar positivamente tais corporações a adotarem ações que gerem os efeitos humanitários pretendidos pelo altruísmo eficaz.[15] Finalmente, altruístas eficazes optariam, como alternativa aos caminhos antes indicados, por trabalhar efetivamente em causas humanitárias (seja ou não por meio de voluntariado) que possam contribuir para diminuir a miséria e o sofrimento no mundo.[16]
Essas ideias e propostas podem parecer idealistas e irreais para os olhares brasileiros atuais, tal como assim pareceram as ideias de Singer originalmente no começo da década de 1970 entre seus pares do primeiro mundo. Para quem dispõe de uma vida comum no Brasil e não é considerado exatamente rico, as propostas do altruísmo eficaz soam como algo fora do contexto nacional.
Porém, a catástrofe ambiental e humanitária que há pouco presenciamos no Rio Grande do Sul mostrou-nos como o sentimento altruísta está presente entre os brasileiros e como podem as pessoas comuns, de diferentes formas, atuar para diminuir o sofrimento e a miséria que afligem pessoas a nós desconhecidas, as quais vivem em locais que eventualmente nunca visitamos.
Se podemos ajudar, seja por doações, seja por outras formas (inclusive por trabalho voluntário), as vítimas gaúchas de agora, por qual motivo não podemos (vencendo nossa omissão costumeira) continuar auxiliando outros seres humanos, localizados noutros confins, que igualmente poderiam se beneficiar (e se salvar) com nossa ajuda?
Não seria o caso de repensarmos nosso consumo, deixarmos de adquirir bens de luxo de que não precisamos, para termos condições de prestar assistência a mais pessoas que precisam de nosso apoio material e humano? Não seria um dever ético programarmos nossas vidas de modo a maximizar os efeitos positivos que podemos deixar no mundo?
Quiçá o desastre climático de agora venha a nos sugerir que, para que vivamos uma vida realmente ética, temos que pensar no nosso compromisso para com as demais pessoas, por mais longe que estejam elas – tal como já dizia Singer em 1972.
[1]Cf. Anselmo Henrique Cordeiro Lopes: La Integración de los Derechos Humanos en América Latina, Sevilha, Universidad de Sevilla, 2015, p. 118, disponível em: <https://www.corteidh.or.cr/tablas/r38065.pdf>. Acesso em 30.5.2024.
[2]Ver matéria em: <https://www.theguardian.com/music/2011/jul/28/concert-for-bangladesh-charity-pop>. Acesso em 30.5.2024.
[3]Ver matéria em: <https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2024/05/6852008-rede-de-solidariedade-por-vitimas-de-enchentes-no-rs-se-espalha-pelo-pais.html>. Acesso em 12.5.2024.
[4]Cf. “Famine, Affluence, and Morality” in Philosophy and Public Affairs 1, n. 3, Primavera de 1972, pp. 229–243.
[5]Cf. Peter Singer: Famine, Affluence, and Morality, Oxford, Oxford University Press, 2016, p. 4.
[6]Ob. cit. p. 6. Tradução livre.
[7]Ver também Peter Singer: The Life You Can Save: How To Do Your Part Part To End World Poverty, Melbourne-Nova Iorque, versão Kindle, capítulo 2.
[8]Ibidem. Tradução livre.
[9]Cf. Peter Singer: The Most Good You Can Do: How Effective Altruism is Changing Ideas About Living Ethically, Nem Haven, Yale University Press, pp. 3-12.
[10]Cf. ob. cit., pp. 39-53.
[11]Ver notícia em: <https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2022/07/14/bill-gates-doara-us-20-milhoes-para-aumentar-despesas-de-sua-fundacao.ghtml>. Acesso em 28.5.2024.
[12]Ver notícia em: <https://www.metropoles.com/celebridades/bill-gates-deixara-menos-de-1-da-fortuna-para-os-filhos>. Acesso em 28.5.2024.
[13]Ver notícia em: <https://money.cnn.com/2015/06/01/news/companies/giving-pledge-billionaires/index.html>. Acesso em 28.5.2024.
[14]Ver notícia em: <https://edition.cnn.com/2024/05/28/tech/sam-altman-giving-pledge/index.html>. Acesso em 28.5.2024.
[15]Cf. ob. cit., pp. 55-66.
[16]Cf. Benjamin Todd: 80,000 Hours: Find a Fulfillment Career That Does Good, 2ª ed., Oxford, 2023, pp. 60-62.