Uma reportagem da Folha de S.Paulo de dezembro de 2025, de autoria de Ana Gabriela Oliveira Lima, baseada em dados do Datafolha, chamou atenção para um resultado aparentemente paradoxal: 34% dos petistas se dizem de direita, enquanto 14% dos bolsonaristas se dizem de esquerda.
O texto corretamente observa que identidade política e ideologia nem sempre caminham juntas e levanta hipóteses como falta de clareza conceitual, polarização e influência das lideranças para explicar o fenômeno.
Os números estão certos, mas a interpretação pode ir além
Uma pesquisa nacional recente, Vozes da Democracia, realizada pelo Ipec em fevereiro de 2025 com 1.504 entrevistas domiciliares, no âmbito do ReDem/INCT, permite olhar o mesmo fenômeno a partir de outra chave: não a confusão do eleitor, mas a estrutura das identidades políticas no Brasil.
Ao analisar simultaneamente simpatia pelos líderes, vínculo partidário, voto em 2022, autoposicionamento ideológico e avaliações simbólicas sobre Lula e Jair Bolsonaro, os dados revelam algo importante: lulistas e bolsonaristas não são grupos equivalentes organizados da mesma forma. Eles diferem tanto em quem são quanto naquilo que constitui seu núcleo duro.
Quem são os lulistas?
Os lulistas formam um grupo heterogêneo, social e ideologicamente transversal. O que os une não é, necessariamente, uma identidade de esquerda no sentido clássico, mas um conjunto de vínculos práticos e afetivos com Lula e, em menor grau, com o PT.
Na pesquisa Vozes da Democracia, o pertencimento lulista se organiza sobretudo em torno de três elementos: 1) simpatia pessoal por Lula; 2) voto em Lula no segundo turno de 2022; 3) avaliação positiva do PT como instrumento político.
A ideologia aparece, mas não é condição necessária. Há lulistas que se definem como de centro e de direita sem que isso represente incoerência interna. É provável que para esses eleitores, Lula seja menos um representante de uma doutrina ideológica e mais um mediador político, associado a experiências passadas de inclusão social, estabilidade econômica ou proteção frente a riscos percebidos.
Isso ajuda a entender por que “petistas de direita” não são uma anomalia estatística: eles fazem parte de uma coalizão ampla, característica histórica do lulismo desde os anos 2002.
Quem são os bolsonaristas?
O bolsonarismo, por sua vez, apresenta uma estrutura mais ideologicamente coerente. Ser bolsonarista está fortemente associado a: 1) autoposicionamento à direita; 2) simpatia pessoal por Bolsonaro; 3) voto consistente no ex-presidente.
Aqui, a ideologia funciona como eixo organizador central, não como atributo periférico. Mesmo quando o vínculo partidário é frágil, o PL aparece mais como veículo do que como identidade duradoura. Nesse caso, o alinhamento ideológico parece claro.
Isso ajuda a explicar por que bolsonaristas que se dizem de esquerda existem, mas são minoritários e pouco centrais na base. Eles não estruturam o grupo, orbitam suas margens.
Núcleos duros distintos, lógicas distintas
O ponto central não é que lulistas e bolsonaristas “misturam” ideologia e identidade de maneira caótica. O ponto é que cada grupo se organiza a partir de um núcleo duro diferente.
De forma sintética na tabela abaixo:
| Dimensão central | Lulismo | Bolsonarismo |
| Elemento estruturante | Liderança + experiência política | Ideologia + liderança |
| Papel da ideologia | Secundário | Central |
| Vínculo partidário | Relevante, mas não exclusivo | Instrumental |
| Base social | Ampla e transversal | Mais homogênea |
| Tipo de identidade | Coalizão política | Identidade ideológica |
Essa diferença estrutural explica por que os percentuais destacados pela Folha não têm o mesmo significado político nos dois campos. Petistas à direita não enfraquecem o lulismo; eles confirmam sua capacidade de agregação. Já bolsonaristas à esquerda não indicam transversalidade comparável, mas exceções dentro de um campo ideologicamente mais fechado.
Essa assimetria sugere que o bolsonarismo opera como um sistema de crenças mais consistente e normativamente integrado, enquanto o lulismo se organiza mais por avaliações retrospectivas, experiências materiais e pela centralidade de uma liderança agregadora. Em termos prospectivos, isso ajuda a explicar por que o bolsonarismo pode sobreviver para além de Bolsonaro, ao passo que o lulismo enfrenta o desafio ainda em aberto de se reproduzir politicamente sem Lula.
O eleitor não está confuso: o sistema político que é complexo
A leitura mais produtiva não é a de um eleitor desinformado ou conceitualmente perdido. Os dados sugerem o contrário: os eleitores sabem distinguir liderança, ideologia, partido e experiência concreta, e combinam esses elementos de forma estratégica.
O lulismo e o bolsonarismo são respostas diferentes a um mesmo contexto de crise de representação. Um opera por ampliação de coalizões, outro por delimitação identitária. Ambos fazem sentido e ambos ajudam a entender por que o mapa político brasileiro não cabe facilmente em rótulos ideológicos tradicionais.
Nesse sentido, a pesquisa do Datafolha aponta o fenômeno correto. O passo seguinte é reconhecer que a aparente incoerência dos eleitores é, na verdade, coerência com estruturas políticas distintas. Não se trata de confusão. Trata-se de como identidades políticas são construídas, disputadas e mobilizadas no Brasil de hoje.