Em meio à crise do multilateralismo, a cooperação entre Brasil e China se consolida como uma das forças mais promissoras para impulsionar o desenvolvimento sustentável.
Os dois países reúnem condições únicas para liderar a transição ecológica, especialmente no uso da terra e na conservação de ecossistemas estratégicos. Uma agenda comum entre Brasília e Pequim tem potencial para acelerar modelos de baixo carbono e reposicionar o Sul Global na governança ambiental internacional.
Detentor da maior floresta tropical do mundo e de uma das agriculturas mais produtivas do planeta, o Brasil ocupa posição central nesse esforço. O governo brasileiro avança em seu Plano de Transformação Ecológica, que integra neoindustrialização, inclusão social e sustentabilidade ambiental para elevar a produtividade, reduzir desigualdades e impulsionar um desenvolvimento de baixo carbono e com uso sustentável dos recursos naturais.
A China, por sua vez, combina peso industrial com uma crescente consciência ambiental. Maior emissor global de gases de efeito estufa, o país adotou como política de Estado a noção de “Civilização Ecológica”, guiada pela visão das “Duas Montanhas”, que defende a equivalência entre riqueza natural e prosperidade econômica.
A transição no uso do solo surge como ponto de conexão entre os dois países. Na zona tropical, responsável pela maior parte da produção global de alimentos, as florestas exercem papel decisivo na regulação climática e na distribuição das chuvas.
Cumprir a meta internacional de deter e reverter o desmatamento até 2030 dependerá, em grande parte, da atuação conjunta de produtores e consumidores de commodities agrícolas. Isso é particularmente relevante dado que as exportações brasileiras à China representam a relação de commodities agrícolas mais significante no mundo (com média de US$ 46,9 bilhões anuais).
Esse desafio passa por reorganizar paisagens produtivas, integrar vegetação nativa como parte do sistema agrícola, restaurar áreas degradadas e desenvolver instrumentos financeiros que valorizem o serviço ambiental prestado pelas florestas. A retomada da queda do desmatamento no Brasil, somada ao reconhecimento crescente na China de que sua segurança alimentar depende da saúde das florestas tropicais, abre oportunidades inéditas de cooperação.
Sinais dessa mudança já aparecem no setor privado chinês. A COFCO International, uma das maiores tradings de commodities do mundo, e a Chinese Meat Association, importante importadora de carne, passaram a adotar padrões mínimos de sustentabilidade em suas importações. A tendência abre espaço para outros acordos bilaterais que estabeleçam critérios comuns de sustentabilidade nas cadeias de valor.
Entre as possibilidades, destaca-se a criação de incentivos econômicos para produtores brasileiros que adotem práticas sustentáveis. Consumidores chineses poderiam remunerar diferenciais ambientais, como a manutenção de vegetação nativa além do exigido por lei, reduzindo a pressão sobre áreas sensíveis e fortalecendo o comércio justo.
Outra frente relevante é o financiamento à conservação. O recém-lançado TFFF (Fundo das Florestas Tropicais para Sempre), anunciado durante a COP30 em Belém, já recebeu compromissos superiores a US$ 6,5 bilhões. Uma eventual entrada da China reforçaria a liderança do Sul Global e ampliaria os recursos destinados à proteção de ecossistemas tropicais.
No mercado de carbono, cresce a expectativa por uma futura integração entre os sistemas de emissões de Brasil e China. A adesão chinesa à Coalizão pela Integração de Mercados de Carbono, lançada pelo Brasil na COP30, é um avanço importante. A cooperação técnica pode resultar em um mercado mais robusto e transparente, atraindo investimentos em restauração ecológica, energia limpa e agricultura regenerativa.
A restauração ambiental também figura como área estratégica. A China acumula experiência no combate à desertificação e no reflorestamento, assim como exemplo o Brasil, com o PLANAVEG (Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa), que busca restaurar 12 milhões de hectares até 2030. Um memorando recente entre o Ministério do Meio Ambiente do Brasil e a NFGA (Agência Nacional de Florestas e Campos) da China cria condições para ampliar projetos conjuntos.
Os próximos passos incluem a implementação de iniciativas em campo, o intercâmbio tecnológico, o apoio a programas do setor privado e a definição de critérios comuns de sustentabilidade. A cooperação pode se fortalecer ainda em fóruns internacionais, como nas COPs de clima e biodiversidade, e em blocos como o Brics, além de por meio de bancos multilaterais como o NDB (Novo Banco de Desenvolvimento).
Mais do que uma aliança econômica, a parceria entre Brasil e China representa a chance de redefinir o desenvolvimento sustentável sob os princípios da equidade e da responsabilidade compartilhada. Ao somar capacidades e interesses, os dois países podem demonstrar que a transição ecológica é não apenas necessária, mas possível — e que o Sul Global pode liderá-la.