O Brasil voltou a fazer parte do futuro. A COP30 concluiu o melhor acordo possível, nas atuais circunstâncias globais. O trabalho desenvolvido pela presidência da COP – sob a liderança serena e assertiva do presidente André Corrêa do Lago, a CEO Ana Toni e dos 30 enviados – foi inovador, produtivo e resolutivo. Quem esteve na conferência voltou orgulhoso do Brasil, da Amazônia, do Pará, de Belém e, principalmente, do sentimento de pertencimento que o evento devolveu ao país.
A energia e a postura observadas em Belém nas duas semanas foram impressionantes: sóbrias e alegres, pragmáticas e propositivas, cautelosas e ousadas, realistas e sonhadoras, locais e globais. Como tantas ambiguidades podem ter produzido um evento tão vibrante e sereno? A resposta reside no fato de que talvez o país tenha demonstrado, de forma inesperada, sua capacidade de conciliar consciência das dificuldades e engajamento na sua superação.
O que se viu em Belém não foi apenas um evento, foi um espelho se desembaçando, do qual surge a imagem de um Brasil real, possível, plural, cooperativo e maduro o suficiente para não confundir autocrítica com pessimismo, nem esperança com ingenuidade.
A COP aconteceu ao mesmo tempo em que três anúncios sequenciais em seis meses sugerem que, num prazo muito curto, o Brasil vem rompendo o imobilismo e o fatalismo tão familiares à nossa cultura política.
A primeira boa notícia foi o retorno do Brasil ao Mapa da Dignidade, com a saída do Mapa da Fome, marcos civilizatórios para os que priorizam o combate à pobreza. Quem desdenha deste avanço não sabe o que é fome e confunde inclusão social com caridade, Trata-se apenas do cumprimento do pacto democrático da Constituição de 1988.
A segunda novidade foi a revelação, pela insuspeita Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de um salto na confiança no país de 12 % em dois anos – no serviço público este aumento foi de 17% e nos governos locais 21%. Como explicar tal virada em tão pouco tempo, de 2022 para 2025? O que desperta esperança após tantos anos de desalento?
A terceira revelação importante para o Brasil foi a significativa alteração ocorrida no IDH-M, nos últimos anos, conforme os dados do último censo revelaram, colocando o Brasil no grupo dos países desenvolvidos, a despeito de suas desigualdades persistentes. É importante entender as causas que explicam o fato de que mudanças no Brasil real não alcançam nem a sociedade nem o debate político.
As mudanças estruturais em curso não chegaram nem à mídia especializada, nem ao público em geral. São necessários eventos e organismos internacionais para darem um discreto toque nos brasileiros: “vocês estão melhorando de forma significativa, rápida e para melhor”.
Neste contexto, o Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos lidera a implementação de três grandes mutirões nacionais: a Carteira de Identidade Nacional (CIN), o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o lançamento das bases para a estruturação de um novo Estado brasileiro.
A CIN unifica identidades em um documento único para que as pessoas possam ser incluídas de forma mais simples em todas as plataformas de benefícios sociais, às quais tem direito. Facilita a vida das empresas, gera economia de recursos, acaba com muita burocracia desnecessária, aumenta a produtividade e reduz os custos de transação para o país. Quarenta milhões de brasileiros e brasileiras possuem a CIN, e a meta é o Brasil chegar a 100 milhões até o final de 2026.
O CAR, um instrumento concebido como ferramenta para o combate ao desmatamento, hoje faz parte do ecossistema de crédito rural, do processo de transição ecológica e das métricas em desenvolvimento da nova economia verde baseada no mercado de carbono. O CAR hoje é referência de infraestrutura pública digital internacional e sua validação depende dos governos estaduais se engajarem na sua implementação.
Por fim, o MGI e a AGU receberam uma proposta de reorganização da administração pública brasileira, fruto de um trabalho coletivo de especialistas em Direito e Gestão Pública. A partir dessa entrega, o texto deverá seguir para apreciação do Poder Executivo, inserindo-se em um processo mais amplo de reflexão crítica sobre os limites e desafios da Administração Pública no Brasil, com potencial para orientar diálogos envolvendo os demais Poderes, entes federados, sociedade civil, academia e setor produtivo — atores centrais de uma governança colaborativa e plural voltada à construção de um Estado com a cara do Brasil.
Estes são três eixos estruturantes, afetos às áreas de atuação do MGI, que se reproduzem em várias outras dimensões da vida pública nacional. Caminhamos para um ano de disputa eleitoral — inclusive presidencial — que, mais uma vez, trará à tona as tensões do nosso sistema político: fragmentação, polarização e dificuldade de coordenação.
Democracia é conflito, mas nenhum país se transforma apenas pela disputa: é preciso também construir alianças, consensos e pactos de futuro. Desenvolvimento é tarefa de todas e todos. É um mutirão nacional, com todos os consensos e divergências que nos fazem brasileiras e brasileiros.