O sandbox dos maiores riscos do século: clima versus IA

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Se fosse possível reunir, em um ambiente controlado, os dois maiores riscos do século 21 para submetê-los ao mesmo teste, qual deles prevaleceria?

Essa é a lógica dos sandboxes regulatórios: criar um espaço seguro para experimentar, observar comportamentos e compreender consequências antes que elas se materializem no mundo real.

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Façamos o mesmo exercício, mas no campo da governança corporativa. O enfrentamento entre o risco climático e o risco da inteligência artificial.

Ambas transformam mercados, desafiam reguladores, pressionam conselhos de administração e alteram profundamente a forma como empresas produzem valor. Aparentemente, disputam o protagonismo na agenda global de riscos.

Poucos riscos possuem capacidade semelhante de destruir ativos físicos, como o risco climático. Eventos extremos interrompem cadeias produtivas, inviabilizam operações, comprometem a infraestrutura logística, elevam custos de seguros, pressionam o crédito e afetam diretamente o crescimento econômico. Não por acaso, o Fórum Econômico Mundial mantém, ano após ano, como o risco de maior impacto para a economia global. Em 2024, segundo a Munich Re, desastres naturais provocaram perdas superiores a US$ 320 bilhões. No Brasil, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul demonstraram como um único evento regional pode produzir efeitos em toda a economia nacional.

O desastre climático parece ser o vencedor, até aqui.

Então, vamos alterar as variáveis do experimento.

Retiremos enchentes, secas e incêndios da equação e coloquemos em seu lugar algoritmos capazes de aprender, decidir e agir autonomamente.

A inteligência artificial não destrói pontes nem derruba edifícios. Ela faz algo mais silencioso. Ela redefine a confiança.

Em pouco tempo, desde a sua democratização, testemunhamos fraudes milionárias realizadas por meio de deepfakes, ataques cibernéticos potencializados por modelos generativos, vazamentos de propriedade intelectual, decisões automatizadas enviesadas e manipulações de informação em escala inédita. Em Hong Kong, por exemplo, um funcionário transferiu cerca de US$ 25 milhões acreditando participar de uma reunião virtual com executivos da empresa. Todos eram deep fakes criadas por IA.

Enquanto o clima ameaça ativos tangíveis, a IA incide sobre aquilo que hoje representa a maior parcela do valor das empresas: seus ativos intangíveis. Marca, reputação, dados, propriedade intelectual e confiança passaram a valer mais do que máquinas e edifícios. Segundo a Ocean Tomo, esses ativos já representam mais de 90% do valor de mercado das empresas que compõem o S&P 500.

Temos um empate?

Talvez, estejamos partindo da premissa errada. Comparar clima e Inteligência Artificial pressupõe que ambos disputam espaço entre si. Mas, na realidade, eles se retro-alimentam.

Façamos um teste de estresse. Toda crise exige essa etapa preventiva.

Uma enchente compromete um grande data center. Sistemas baseados em IA passam a operar com dados incompletos. Algoritmos recalculam rotas logísticas equivocadas. Cadeias de suprimentos entram em colapso. Informações financeiras deixam de refletir a realidade operacional. Relatórios climáticos são divulgados com inconsistências. Investidores reagem. Reguladores iniciam investigações. O custo do capital aumenta. Nenhum desses eventos, isoladamente, seria suficiente para comprometer uma organização resiliente.

Mas, a convergência, talvez, seria. É exatamente nesse ponto que o sandbox revela seu verdadeiro resultado: não existe vencedor.

O maior risco do século 21 não é o clima, tampouco a Inteligência Artificial. É a incapacidade das organizações de compreender que ambos passaram a compor um único sistema de riscos interdependentes.

E isso já está se refletindo na regulação. A Lei 15.042/2025 introduziu o mercado regulado de carbono no Brasil. O Banco Central e o Conselho Monetário Nacional passaram a exigir a integração dos riscos climáticos e socioambientais às estruturas de gerenciamento das instituições financeiras.

A CVM aproximou o reporte de sustentabilidade aos padrões do ISSB, reconhecendo que riscos climáticos produzem efeitos financeiros materiais. Em paralelo, a regulação da IA – realidade na Europa e em outros países – evolui sob princípios semelhantes: gestão de riscos, transparência, supervisão humana e accountability.

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Os reguladores compreenderam aquilo que muitas organizações ainda resistem em aceitar: riscos complexos não podem mais ser administrados de forma fragmentada. Essa é a principal conclusão do nosso experimento.

Durante décadas, o mercado precificou crescimento. Hoje, começa a precificar resiliência. No futuro, talvez os balanços patrimoniais continuem registrando ativos e passivos. Mas o verdadeiro patrimônio das empresas será a sua capacidade de sobreviver quando os dois maiores riscos do século deixarem de atuar separadamente.