M&As em saúde: o desafio de comprar o que não está no balanço

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O setor de saúde no Brasil permanece como uma das teses mais robustas para investidores locais e estrangeiros. Os fundamentos são biológicos e demográficos: uma população que envelhece aceleradamente, demanda estrutural crescente e um mercado que, apesar das grandes movimentações recentes, segue fragmentado em diversos nichos. No entanto, o ambiente de fusões e aquisições (M&A) atingiu um novo patamar de sofisticação.

O sucesso das operações agora depende de variáveis que nem sempre aparecem nas planilhas iniciais, revelando-se apenas no calor da negociação ou, mais perigosamente, após o fechamento. Para quem estrutura esses negócios, o diferencial migrou da simples identificação de ativos para a capacidade de antecipar riscos que continuam sendo subestimados.

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Diferentemente de outros setores, uma parte vital do valor de uma empresa de saúde não está no balanço patrimonial, mas em elementos intangíveis. O relacionamento com o corpo clínico, a manutenção de contratos com operadoras e a reputação perante os pacientes são ativos extremamente sensíveis a mudanças de controle.

Se esses elementos não forem protegidos por mecanismos contratuais pensados sob medida, o investidor corre o risco de pagar por um valor que se deteriora rapidamente após o fechamento.

Na saúde, o ativo tem “pernas”: em clínicas de especialidades, não é raro que até 50% da receita dependa de apenas dois ou três médicos. Sem estratégias de retenção e alinhamento de longo prazo, a saída de um único profissional pode inviabilizar o faturamento e os credenciamentos da unidade.

Atualmente, o que vemos é que a era das grandes redes hospitalares e laboratórios focados apenas em escala deu lugar a uma fase mais seletiva e operacional. Hoje, as janelas de oportunidade brilham em três frentes principais:

  1.  Plataformas de especialidades: oncologia, oftalmologia, genética, etc.
  2.  Operadores regionais: ativos sólidos com forte presença local, mas que ainda carecem de institucionalização.
  3.  Modelos “Asset-Light”: atendimento ambulatorial e home care

A criação de valor nesses ativos raramente vem de arbitragem de múltiplos. Ela nasce do trabalho “de chão de fábrica”: padronização de protocolos clínicos, ganho de eficiência e uma governança que o ativo, muitas vezes familiar, nunca teve.

O labirinto da questão regulatória

Um dos pontos mais negligenciados, mesmo por investidores experientes, é a complexidade regulatória brasileira. Existe uma sobreposição de normas federais, estaduais e municipais que frequentemente se contradizem.

Uma due diligence eficaz no setor precisa ser cirúrgica, identificando desde licenças vencidas e divergências entre atividades exercidas e autorizadas, até estruturas societárias montadas para atender exigências de conselhos profissionais. São achados frequentes, e qualquer um deles pode impactar diretamente a estrutura e o preço da operação. Uma due diligence que não contemple especificidades setoriais tende a gerar surpresas no pós-fechamento, incluindo disputas de ajuste de preço e acionamento de cláusulas de indenização que poderiam ter sido evitados.

Soma-se a isso o desafio da segurança da informação. O tratamento de dados sensíveis de pacientes exige não apenas conformidade com a LGPD, mas uma infraestrutura de cibersegurança que ativos menores muitas vezes não possuem.

Identificar vulnerabilidades sistêmicas é crucial, pois o dano reputacional e as sanções decorrentes de um vazamento podem devastar o valor do ativo. A proteção de dados tornou-se uma variável crítica de sustentabilidade que impacta diretamente o múltiplo de saída.

Além disso, o Brasil não é um mercado homogêneo. Assumir que sinergias administrativas serão capturadas automaticamente entre ativos de regiões diferentes é um equívoco comum. Diferenças culturais, tabelas de remuneração distintas e o nível de dependência de contratos locais com operadoras podem tornar a integração significativamente mais cara e lenta do que o modelo financeiro previa.

Como sair do ativo?

Atualmente, o maior desafio talvez não seja a entrada, mas a saída. Com IPOs mais seletivos e compradores estratégicos adotando maior disciplina na alocação de capital, a estratégia de desinvestimento precisa ser construída desde o primeiro dia. Isso altera diretamente a negociação dos documentos, resultando em acordos de acionistas com estruturas de governança mais detalhadas, direitos reforçados de veto e mecanismos sofisticados de drag along e tag along. Quando mal calibrados, esses mecanismos podem travar a operação por anos. Não por acaso, é cada vez mais frequente que a qualidade da documentação negociada na entrada acabe sendo o fator determinante para viabilizar — ou inviabilizar — a saída.

Investidores que ignoram esses desafios de “campo” e confiam cegamente em modelos teóricos de eficiência descobrem, tarde demais, que parte do valor projetado não se materializa. O sucesso pertence a quem tem a disciplina de precificar não apenas o que a empresa é, mas o custo real do que ela precisa se tornar.

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O setor de saúde no Brasil segue sendo um dos mais atrativos para investidores, e ainda há espaço relevante para consolidação. Mas a distância entre um investimento bem-sucedido e um resultado frustrante raramente se explica pela tese. Quase sempre está na execução: na condução da due diligence e na calibragem dos mecanismos de proteção contratual.

Compreender as particularidades do setor — da autonomia médica à proteção de dados sensíveis — é o que permite transformar determinado ativo em uma plataforma de saúde sustentável e lucrativa. No cenário atual, o capital está mais disciplinado, e o sucesso pertence a quem sabe navegar a complexidade entre o cuidado clínico e a eficiência jurídica e financeira.